Nem tudo é o que parece — mas, às vezes, o que parece realmente é. Entre uma provocação recebida numa fila, anos atrás, e as conclusões apressadas que ouço hoje sobre o uso de inteligência artificial nos meus textos, este ensaio observa um hábito universal: diante das lacunas na história dos outros, nós as completamos. A pergunta é de onde vem o material do preenchimento — e o que ele entrega sem querer.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Nem tudo é o que parece. Mas, às vezes, o que parece realmente é. É essa volatilidade que o nosso cérebro tem dificuldade de aceitar: queríamos que a regra valesse num sentido só. O mundo não assinou esse contrato.
E o cotidiano tem uma armadilha específica: quando a história de alguém chega com lacunas, nós as completamos — com material que nunca vem do outro; vem do nosso próprio estoque.
Tenho um amigo da faculdade que vem de família de políticos — e é, de todos ali, o menos político: vocação artística e filosófica, afinidade com o budismo, ex-músico profissional. Na época da cena, eu tinha acabado de ter um aumento de renda e passei a frequentar ambientes novos, com gente de condição um pouco maior que a minha — não sem vaidade, admito, mas também pela necessidade de sair de uma roda cujos vícios me faziam mal.
Um dia, numa fila qualquer, um colega se aproximou com ironia na voz: agora tinha comprado um certo carro; quem sabe, assim, pudesse ser meu amigo. Perguntei se ele estava viajando. Ele emendou, mostrando a outra ponta da mesma ironia: com aquele seu amigo ali é que você está perdendo tempo — ele não tem influência nenhuma na política, não vai ser nada que te favoreça.
Olhei para ele e disse: é meu amigo da faculdade, cara.
Ele mudou de assunto imediatamente. E a rapidez da mudança disse tanto quanto a provocação: aquela conclusão não tinha saído de mim — tinha saído da cabeça dele. Vista de fora, a minha vida dava verossimilhança à hipótese; amizades por interesse existem. Mas a amizade que ele escolheu acusar era exatamente a que desmontava a hipótese por dentro: anterior a tudo aquilo, de fundo filosófico e artístico, com um amigo que não tinha mesmo nada a "oferecer". Diante da lacuna, ele completou o desenho com o que carregava em estoque.
O caso atual é o da inteligência artificial. Contei a algumas pessoas que uso a ferramenta nos meus textos, e algumas concluíram na hora: então a IA faz o trabalho por você. Há tantas maneiras de uma ferramenta dessas ajudar num texto — buscar referências, ligar o que eu disse ao que os pensadores já disseram, lapidar. Mas, no catálogo de quem concluiu assim, existia um item só. Quando o catálogo tem um item, a resposta chega antes de a pergunta terminar.
Este ensaio não conclui que nada é o que parece — nem que tudo é. Conclui algo mais difícil de aceitar: somos mais complexos do que a nossa cabeça gosta. Inclusive eu. Não ter interesse naquela amizade não significa que eu nunca tenha tido, em outra época, uma amizade com interesse. E a IA não escrever os meus textos não significa que eu nunca tenha usado a tecnologia para reduzir esforço — já usei, na faculdade, quando IA nem existia.
Somos complexos. Todos. Mas escolhemos a narrativa fácil, que nos põe na posição de apontar o erro do outro sem nem saber se aquilo é um erro. É a posição mais confortável que existe. Muitas vezes serve para esconder os nossos próprios erros.
Muitas vezes, para justificá-los.
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Nem tudo é o que parece. Mas, às vezes, o que parece realmente é.
Talvez seja justamente essa volatilidade que o nosso cérebro tem tanta dificuldade de aceitar. Queríamos que a regra valesse num sentido só — ou tudo engana, ou nada engana. O mundo não assinou esse contrato.
A humildade intelectual de que estes textos tratam não serve apenas para os assuntos graves. Ela vale — e deve valer, com a mesma disciplina — para o banal do cotidiano. E o cotidiano tem uma armadilha específica: quando a história de alguém chega até nós com lacunas, nós as completamos. O material do preenchimento, porém, nunca vem do outro; vem do nosso próprio estoque. E é assim que, algumas vezes, a ânsia de completar algo nos outros acaba entregando algo sobre nós mesmos.
Vamos lá.
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Tenho um amigo da faculdade que vem de uma família de políticos. Ele é, de todos ali, o menos político — vocação artística e filosófica, afinidade com o budismo, já foi músico profissional. O menos engajado naquele meio, com interesses que apontavam para outro lado. Possivelmente foi por isso mesmo que ficou sendo meu amigo.
Mas antes da cena, é preciso dizer em que momento da minha vida ela aconteceu. Eu tinha acabado de ter um aumento de renda e comecei a frequentar lugares que sempre tive curiosidade de conhecer — como eram, como as pessoas se comportavam ali. Passei a conviver com gente de condição um pouco maior que a minha. Não digo que não houvesse vaidade nisso. Mas havia também uma questão de necessidade: a roda em que eu andava antes estava presa a certos comportamentos — vícios, alguns — que estavam me fazendo mal, e eu acreditava que conhecer pessoas novas poderia ser melhor para mim. E havia, ainda, a curiosidade legítima: eu vivia uma fase em que conversar com pessoas diferentes era exatamente o que eu buscava.
Adianto, para não idealizar: nesse novo ambiente encontrei outros tipos de vícios, que também me incomodaram — e que, mais tarde, me fizeram me afastar de muita gente que conheci ali. Mas isso é assunto para um outro texto.
Foi nesse período que, um dia — na fila de um show, ou de um desses lugares da cidade que se visita num domingo qualquer; a memória guardou a cena e dispensou o cenário —, um colega se aproximou com ironia na voz. Disse que agora tinha comprado um certo carro: quem sabe, assim, pudesse ser meu amigo.
Perguntei se ele estava viajando.
E ele emendou, mostrando a outra ponta da mesma ironia: com aquele seu amigo ali é que você está perdendo tempo. Ele não tem nada a te dar. Não tem influência nenhuma ali na política. Não vai ser nada que te favoreça.
Eu olhei para ele e disse: é meu amigo da faculdade, cara.
Ele mudou de assunto imediatamente. E a rapidez da mudança disse tanto quanto a provocação: em algum nível, ele entendeu na hora que aquela conclusão não tinha saído de mim. Tinha saído da cabeça dele.
A leitura dele não nascia do nada. Vista de fora, a minha vida naquele momento dava verossimilhança à hipótese: um sujeito em ascensão, circulando por ambientes novos, entre gente de mais posses. É o caso em que o que parece quase é. Amizades por interesse existem — sempre existiram. Mas a amizade que ele escolheu para acusar era exatamente a que desmontava a hipótese por dentro: vinha de antes de tudo aquilo, era de fundo filosófico e artístico — horas de conversa sobre projetos, sobre arte, sobre o futuro —, e o meu amigo, naquele ponto, não tinha mesmo nada a "oferecer". Se eu escolhesse amizades por utilidade, aquela teria sido a primeira a cair.
Por que será, então, que ele fez aquela associação — e logo aquela? Naquele momento eu não percebi, e por anos não percebi. Hoje percebo: diante das lacunas dos outros, nós completamos o desenho com aquilo que carregamos dentro da própria cabeça. Ele olhou para a minha vida, viu um espaço em branco, e o preencheu com o material que tinha em estoque.
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E agora o caso mais atual, o da inteligência artificial.
Já contei a algumas pessoas que uso a ferramenta para ajudar nos meus textos. E algumas delas — não todas, mas algumas — concluíram na hora: então a IA faz o trabalho por você.
Eu pensei: existem tantas maneiras de uma ferramenta dessas ajudar num texto. Ela pode buscar referências. Pode ligar o que eu disse ao que os pensadores já disseram antes de mim. Pode dar forma, ajudar na lapidação. São muitas as maneiras legítimas — e nenhuma delas é fazer o trabalho por mim.
Mas, na cabeça de quem concluiu assim, existia uma única maneira de usar a ferramenta. Talvez não por maldade — talvez por nem saberem, ainda, que havia outras possibilidades sobre a mesa. A conclusão foi uma só, rápida, quase automática. Quando o catálogo tem um item, não há o que escolher — e é por isso que a resposta chega antes de a pergunta terminar.
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Mas este ensaio não termina onde parece que vai terminar. Ele não conclui que nada é o que parece — nem, muito menos, que tudo é.
Ele termina em algo mais difícil de aceitar: os seres humanos, a vida, as situações são mais complexos do que a nossa cabeça gosta. Nós gostamos de fechar as situações — rápido, com lógica, com simplicidade. Raramente vemos o todo. Vemos uma parte e finalizamos com aquilo que temos às mãos.
A postura mais humilde, e mais inteligente, é admitir a complexidade. Inclusive a minha.
Porque o fato de eu não ter nenhum interesse oculto na amizade com o meu amigo da faculdade não significa que eu nunca tenha tido, em alguma outra situação, em alguma outra época, uma amizade com interesse. E o fato de a IA não escrever os meus textos não significa que eu nunca tenha usado a tecnologia para reduzir, significativamente, o esforço de algum trabalho. Já usei — na faculdade, em épocas em que IA nem existia. Isso ocorreu. Hoje, depois de muitos anos de experiência, a realidade é outra — embora eu precise assumir que sim, ela facilita muito as coisas. Mas a facilidade que ela me traz hoje, eu converto em produzir mais. Nem sempre foi assim.
Somos complexos. Todos. Mas decidimos não enxergar isso para ficar com uma narrativa fácil, rápida, muitas vezes divertida — uma narrativa que nos põe na posição de apontar o erro do outro sem nem saber se aquilo é um erro. É a posição mais confortável que existe. Muitas vezes serve para esconder os nossos próprios erros.