Filosofia da Lucidez
Letra

A Cadeira e a Generosidade

Reencontrei há pouco um amigo que eu não via fazia muitos anos. Foi uma conversa boa, dessas que retomam de onde pararam. Em algum momento falei de filhos: eu e minha esposa pretendemos ter um em breve, e isso já mudou a forma como olho para o dinheiro. Guardar, organizar, prever. Num país onde o Estado ainda não oferece a segurança com que uma família possa contar, um filho pode precisar, lá na frente, de um empurrão que só a própria família dá.

Ele não tem planos de ter filhos. Ouviu, concordou, e então sorriu com um meio tom de provocação:

— Ainda mais vocês, empresários, né? Que não pagam aquele salário para os funcionários.

A frase ficou comigo durante dias. Não porque fosse ofensiva, mas porque eu já tinha pensado exatamente aquilo, só que do outro lado.

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Tenho duas empresas. Na primeira sou sócio de minha mãe e de meu irmão, e as decisões são sempre divididas. Durante anos, alimentei uma certeza silenciosa: se um dia eu tivesse uma empresa só minha, pagaria muito mais. O dobro, talvez o triplo. Eu achava que o que faltava era a caneta. Hoje sei que o que me faltava era enxergar o que eles enxergavam.

Depois veio a segunda empresa, onde só eu e minha esposa decidimos. E a caneta chegou.

O que descobri não foi que eu era menos generoso do que imaginava. Foi que a generosidade, quando sai da imaginação e entra na planilha, passa a disputar espaço com outras coisas. Pagar o dobro do que alguém aceitaria receber pode significar deixar de ter uma segunda pessoa. E uma segunda pessoa significa alguém de reserva quando a primeira adoece, um cliente atendido com calma em vez de pressa, uma empresa que não desaba na primeira turbulência. Significa, inclusive, que eu consiga me afastar um pouco para fazer outras coisas, como escrever isto.

Não pago o dobro nem o triplo. Mas a funcionária que contratei há pouco me disse que este é o melhor emprego que já teve. Guardo essa frase com mais orgulho do que guardaria o triplo imaginado.

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Existe uma diferença que quase ninguém enxerga de fora. O empresário não tem CLT. Não tem regra que o proteja do mercado, e o mercado não protege ninguém, nem as pequenas empresas, nem as grandes.

Os taxistas pareciam ter um negócio consolidado até o Uber chegar oferecendo corridas a preços que dificilmente se sustentavam, provavelmente no prejuízo, para conquistar o mercado. Conquistou, e os preços subiram. Hoje as montadoras instaladas há décadas no Brasil veem chegar as chinesas com preços agressivos. Talvez a história se repita, talvez não. Mas o recado é o mesmo: você pode trabalhar da melhor maneira do mundo, e nada impede que entre alguém com fôlego e interesse em desmontar o seu plano para colocar o dele no lugar.

Não há vagas esperando ex-empresários falidos. Ninguém anuncia: "Procuramos quem perdeu a empresa; pagamos o mesmo que você ganhava." A gestão de risco do empresário é feita, literalmente, por sua conta e risco. E proteger a empresa, muitas vezes, é proteger a paz da própria casa.

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Seria desonesto parar aqui. Meu amigo não estava inteiramente errado. Se o empresário carrega o risco, o funcionário carrega a dependência: quem define quanto ele vale é outra pessoa. As duas assimetrias existem ao mesmo tempo, e reconhecer uma não apaga a outra. Também não é verdade que perder um emprego seja simples. Quem já passou meses procurando sabe que a rede de proteção é mais curta do que parece de fora.

O ponto não é quem sofre mais. É outro.

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Quando a decisão não está nas nossas mãos, imaginamos que seríamos mais generosos, mais justos, mais corajosos. É fácil, porque a generosidade imaginada não custa nada a quem imagina. Ela olha uma variável só. Quando a decisão cai no nosso colo, aparecem todas as outras: o risco, o cliente, a reserva, a família. E a escolha muda de natureza.

Percebi isso diante da folha de pagamento. Mas desconfio que vale para quase tudo. Vale para o político que critico sem saber o que ele tinha sobre a mesa, para o médico que parece frio, para o pai que educa o filho de um jeito que eu jamais educaria. E vale também na direção contrária: para o empresário que julga o funcionário sem nunca ter dependido de um salário.

Não é que ninguém possa ser julgado. É que o julgamento honesto começa perguntando o que a pessoa enxergava da cadeira dela, e admitindo que, da minha, eu provavelmente não enxergo quase nada.