Não ter lado não me faz melhor que ninguém: escolher um é das coisas mais humanas que existem. O problema começa quando você deixa de estar de um lado e passa a ser o lado. Aí qualquer crítica vira ataque pessoal, e erros grotescos passam a ser justificados só para não admitir que se estava errado.
E quem lidera percebe. A lealdade incondicional é um cheque em branco: o eleitor que nunca cobra o próprio lado é o mais barato de manter.
Ter um lado é humano. Deixar que ele pense no seu lugar é abrir mão do próprio juízo.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Às vezes digo que não tenho lado, e sei que soa como pose. Não é. Não ter lado não me faz melhor que ninguém, e escolher um é das coisas mais humanas que existem. Mas quem pretende escrever textos que convidem à reflexão não pode decidir o veredito antes do julgamento. Poucas coisas me desanimam tanto quanto militância disfarçada de reflexão: o texto fala em independência e racionalidade, mas já sabia onde ia chegar antes da primeira linha.
A imparcialidade completa é quase impossível. Ainda assim, ela é uma direção, não um lugar. Talvez a forma mais justa de dizer seja esta: eu não tenho time. Tenho opinião sobre cada questão. O que recuso é decidir antes de olhar.
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Meu alerta nunca foi contra quem tem um lado. É contra quem ficou cego para ele. Existe uma diferença entre estar de um lado e ser o lado. Quem está ainda vê os acertos e os erros, aplaude um e cobra o outro. Quem passou a ser o lado sente qualquer crítica ao grupo como ataque pessoal e começa a justificar erros grotescos, porque admiti-los custaria admitir que estava errado sobre si mesmo.
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E isso chega a quem nos governa. Se um líder percebe que seus apoiadores aceitam qualquer coisa, o que ele precisa oferecer a eles? Quase nada. A lealdade incondicional é um cheque em branco. O eleitor que nunca cobra o próprio lado é o mais barato de manter. Não é assim que se escolhe quem deve nos representar.
Ter um lado é humano. Deixar que ele pense no seu lugar é abrir mão do próprio juízo.
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Às vezes digo que não tenho lado, e sei que posso ser mal compreendido. Soa como pose. Como se eu me colocasse num degrau acima, olhando de cima para quem se posiciona. Não é isso. Não ter lado não me faz melhor que ninguém. Escolher um lado é das coisas mais humanas que existem. Pertencemos a famílias, cidades, crenças, e a política é só mais um lugar onde esse impulso aparece.
Mas eu escolhi escrever textos que convidem à reflexão. E, para quem faz isso, a lealdade prévia é um problema.
Poucas coisas me desanimam tanto quanto um texto que se apresenta como reflexão e, no fundo, é militância disfarçada. Ele fala em independência, em racionalidade, em pensar por conta própria, mas já sabia onde ia chegar antes da primeira linha. A conclusão veio antes do argumento. O leitor acha que está sendo convidado a pensar, quando na verdade está sendo conduzido.
Alguém precisa tentar fazer o contrário. Alguém precisa escrever sem ter decidido o veredito antes do julgamento.
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Sei que a imparcialidade completa é, no limite, quase impossível. Todos carregamos uma história, um temperamento, simpatias que nem percebemos. Eu também. Mas a impossibilidade do ideal não dispensa o esforço. Ninguém é perfeitamente honesto, e nem por isso a honestidade deixa de ser um rumo. A imparcialidade é parecida. Não é um lugar onde se chega, é uma direção que se mantém.
Talvez a forma mais justa de dizer seja esta: eu não tenho time. Tenho opinião sobre cada questão, e ela pode cair de um lado numa e do outro na seguinte. O que recuso é decidir antes de olhar. É vestir uma camisa e, a partir dela, saber de antemão o que vou achar de tudo.
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Por isso meu alerta, nos textos e nos vídeos, nunca foi contra quem tem um lado. É contra quem ficou cego para o próprio lado.
Existe uma diferença sutil e decisiva entre estar de um lado e ser o lado. Quem está de um lado ainda consegue olhar para ele. Vê os acertos, vê os erros, aplaude um e cobra o outro. Quem passou a ser o lado perdeu essa distância. O pertencimento ficou tão forte que se fundiu à identidade. E aí qualquer crítica ao grupo deixa de ser uma crítica a ideias e passa a ser sentida como um ataque à própria pessoa.
Daí em diante, o caminho é conhecido. O erro do adversário é prova de caráter. O erro do próprio lado é contexto, exagero da imprensa, perseguição, ou algo que “o outro lado faz pior”. Quando nada disso funciona, resta o silêncio. Erros grotescos passam a ser justificados não porque sejam justificáveis, mas porque admiti-los custaria admitir que se estava errado. E, para quem virou o lado, estar errado sobre o lado é estar errado sobre si mesmo.
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O problema não fica só na cabeça de quem pensa assim. Ele chega a quem nos governa.
Pense do ponto de vista de quem lidera. Se você percebe que uma parte dos seus apoiadores aceita qualquer coisa, que nenhum erro os faz questionar, que nenhuma promessa quebrada os afasta, o que você precisa oferecer a eles? Quase nada. A lealdade incondicional é um cheque em branco. E ninguém se esforça para conquistar o que já recebeu de graça.
O eleitor que nunca cobra o próprio lado é o mais barato de manter. Não é preciso convencê-lo, só não perdê-lo, e isso é fácil, porque ele mesmo se encarrega de defender o indefensável. Talvez ele já esteja sendo manipulado sem perceber. Talvez nem seja preciso manipulá-lo, porque ele se contenta com o que lhe derem.
Não é assim que se escolhe quem deve nos representar. Representação exige cobrança, e cobrança exige liberdade de discordar de quem escolhemos. Um voto que não pode ser retirado deixa de ser escolha e vira devoção.
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Não peço a ninguém que abandone suas convicções. Peço só uma coisa, mais difícil do que parece: que você consiga olhar para o seu lado com os mesmos olhos com que olha para o outro.
Se um erro do adversário te indigna, o mesmo erro, cometido pelos seus, deveria te indignar também. Se não indigna, a camisa já está decidindo por você.
Ter um lado é humano. Deixar que ele pense no seu lugar é abrir mão do próprio juízo.