Filosofia da Lucidez
Letra

A Cartilha e a Origem

Terminando a janta, a minha esposa liga o YouTube e começa a tocar um podcast com duas mulheres de quem eu nunca tinha ouvido falar na vida: Flávia Viana e Menina Veneno. Eu estava no meio de outra coisa, projetando na cabeça um projeto novo que talvez vocês conheçam um dia e talvez não. Por algum motivo, aquela conversa me pareceu interessante o suficiente para eu largar o prato, sentar do lado dela e assistir.

Em pouco tempo uma das duas falou de hiperfoco. Falou que não consegue prestar atenção em certas coisas, que a cabeça vai embora sozinha. Para quem tem TDAH, aquilo é uma língua conhecida — você não precisa de laudo nenhum para reconhecer o próprio sotaque na boca de um estranho. A outra pensa de outro jeito. Vai de A para B, e o caminho é mais ou menos o que você imaginava que seria. Não é menos inteligente por isso; é previsível de um jeito que a primeira nunca seria.

Passei um bom tempo do episódio achando que estava observando isso: a diferença entre uma cabeça que anda em linha reta e uma que salta. Depois percebi que estava observando outra coisa.

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As duas falam de lugares diferentes, e não é só o assunto. A Menina Veneno vem do interior, e a cartilha do interior é mais informal, mais improvisada, mais simples. Ninguém cobra dela um registro formal: ela pode debochar, pode cortar o assunto no meio, pode dizer a coisa errada e seguir em frente. A Flávia carrega a cartilha da cidade grande, onde é preciso caber numa narrativa, falar de um certo ponto de vista, manter um certo comportamento. Eu duvido que ela tenha escolhido isso. Duvido até que tenha percebido. A forma como ela se expressa não é propriamente dela: é da cidade onde ela precisou aprender a se expressar.

E aí está a parte que interessa. A gente ouve as duas e chama uma de autêntica e a outra de ensaiada. Mas nenhuma das duas escreveu a própria cartilha. Uma recebeu a permissão de improvisar, a outra recebeu a obrigação de se enquadrar, e as duas cumprem o que receberam com a mesma obediência. Autêntico, quase sempre, é só o nome que a gente dá para a cartilha que por acaso agrada a gente.

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Ficou ainda um detalhe na minha cabeça, e é ele que desmonta metade do que eu acabei de escrever. A Menina Veneno contou que muita gente que conversa com ela pessoalmente diz não reconhecer ali a mesma pessoa debochada das redes. Ela não negou nem se defendeu. Disse que sabe ser séria, que consegue conversar sobre vários assuntos, mas que não é assim que ela escolhe falar com o público dela — e falou disso com respeito por esse público, não com desprezo. Quer dizer: ela conhece a própria cartilha. Pegou o que recebeu do interior e transformou em instrumento. Escolheu, mantém, e sabe exatamente o que está fazendo.

Isso inverte a conta. Eu tinha separado as duas em improvisada e enquadrada, quando a diferença que importava era outra: uma sabe que está usando uma cartilha, e a outra, talvez, não. A que parecia mais espontânea era a mais deliberada das duas.

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Agora a parte constrangedora.

Eu assisti ao episódio espaçado. Uns minutos na tela, uns minutos na minha cabeça, pensando justamente no projeto que eu tinha largado para sentar no sofá. Quer dizer: eu diagnostiquei a atenção alheia sem conseguir sustentar a minha por dez minutos seguidos. Se elas falaram mais besteira do que eu vi, alguém me corrija, porque eu não estava lá inteiro. E fiz tudo isso com a segurança de quem está vendo de fora, quando na verdade eu estava vendo pela metade.

A minha cartilha também não é minha. É a do sujeito que passou a vida lendo pessoas e que, por isso, acha que ler é a mesma coisa que entender. Diante de duas estranhas conversando por três horas, a primeira coisa que eu fiz foi classificar: essa é assim, aquela é assado. Não me ocorreu, em momento nenhum, simplesmente escutar. Isso não é lucidez, é hábito. E hábito de boa reputação é o mais difícil de enxergar, porque se apresenta como virtude. O critério que sobrou, no fim, não é quem é autêntico e quem é ensaiado. É quem sabe que está usando uma cartilha e quem acha que está sendo apenas si mesmo.

O episódio, aliás, não vai mudar a vida de ninguém. Tem coisa interessante e tem bobagem, na proporção de qualquer conversa longa entre duas pessoas que se gostam. Serve para uma sexta à noite com uma taça de vinho, e já é bastante. Mas eu saí de lá com uma pergunta que não estava no roteiro delas: quantas das minhas opiniões eu escolhi de fato, e quantas eu simplesmente recebi de onde eu vim e passei a defender como se fossem convicções?