Minha esposa liga o YouTube no fim da janta e eu acabo assistindo a um podcast com duas mulheres que eu não conhecia. Uma pensa em linha reta; a outra salta, e fala de hiperfoco de um jeito que quem tem TDAH reconhece na hora. Passei metade do episódio classificando as duas: a do interior, informal e improvisada; a da cidade grande, presa a um registro formal que provavelmente nem escolheu. Nenhuma das duas escreveu a própria cartilha — e autêntico, quase sempre, é só o nome que a gente dá para a cartilha que por acaso nos agrada.
Só que uma delas contou, sem se defender, que sabe ser outra coisa e escolhe não ser diante do público. Conhece a própria cartilha e a mantém por decisão. Isso inverteu a conta. A que parecia mais espontânea era a mais deliberada das três pessoas envolvidas — porque a terceira era eu, assistindo pela metade, classificando estranhas com a segurança de quem vê de fora. O critério, no fim, não é quem é autêntico e quem é ensaiado. É quem sabe que está usando uma cartilha e quem acha que está sendo apenas si mesmo.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Terminando a janta, a minha esposa liga o YouTube e começa a tocar um podcast com duas mulheres de quem eu nunca tinha ouvido falar na vida. Eu estava no meio de outra coisa, projetando na cabeça um projeto novo que talvez vocês conheçam um dia e talvez não. Por algum motivo, larguei o prato e fui assistir.
Em pouco tempo uma delas falou de hiperfoco, de não conseguir prestar atenção em certas coisas, da cabeça que vai embora sozinha. Para quem tem TDAH, aquilo é uma língua conhecida: você não precisa de laudo nenhum para reconhecer o próprio sotaque na boca de um estranho. A outra pensa de outro jeito, vai de A para B, e o caminho é mais ou menos o que você imaginava. Não é menos inteligente por isso; é previsível de um jeito que a primeira nunca seria.
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Achei durante um bom tempo que era só isso: uma cabeça que anda em linha reta e outra que salta. Mas a diferença vinha de antes. Uma vem do interior, e a cartilha do interior é informal, improvisada, simples — ninguém cobra dela um registro formal. A outra carrega a cartilha da cidade grande, onde é preciso caber numa narrativa, falar de um certo ponto de vista, manter um certo comportamento. Duvido que ela tenha escolhido isso. Duvido até que tenha percebido. A forma como ela se expressa não é propriamente dela: é da cidade onde ela precisou aprender a se expressar.
E aí está a parte que interessa. A gente ouve as duas e chama uma de autêntica e a outra de ensaiada. Mas nenhuma das duas escreveu a própria cartilha. Uma recebeu a permissão de improvisar, a outra recebeu a obrigação de se enquadrar, e as duas cumprem o que receberam com a mesma obediência. Autêntico, quase sempre, é só o nome que a gente dá para a cartilha que por acaso agrada a gente.
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Só que um detalhe desmonta metade disso. Ela contou que muita gente que conversa com ela pessoalmente diz não reconhecer ali a mesma pessoa debochada das redes. Não negou nem se defendeu: disse que sabe ser séria, que conversa sobre vários assuntos, mas que não é assim que escolhe falar com o público dela — e falou disso com respeito por esse público, não com desprezo. Quer dizer: ela conhece a própria cartilha. Pegou o que recebeu do interior e transformou em instrumento.
Isso inverte a conta. Eu tinha separado as duas em improvisada e enquadrada, quando a diferença que importava era outra: uma sabe que está usando uma cartilha, e a outra, talvez, não. A que parecia mais espontânea era a mais deliberada das duas.
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Agora a parte constrangedora. Eu assisti ao episódio espaçado — uns minutos na tela, uns minutos na minha cabeça, pensando justamente no projeto que eu tinha largado para sentar no sofá. Quer dizer: diagnostiquei a atenção alheia sem sustentar a minha por dez minutos seguidos, e fiz isso com a segurança de quem está vendo de fora, quando na verdade eu estava vendo pela metade.
A minha cartilha também não é minha. É a do sujeito que passou a vida lendo pessoas e que, por isso, acha que ler é a mesma coisa que entender. Diante de duas estranhas conversando por três horas, a primeira coisa que fiz foi classificar. Não me ocorreu, em momento nenhum, simplesmente escutar. Isso não é lucidez, é hábito — e hábito de boa reputação é o mais difícil de enxergar, porque se apresenta como virtude. O critério que sobra não é quem é autêntico e quem é ensaiado. É quem sabe que está usando uma cartilha e quem acha que está sendo apenas si mesmo.
O episódio não vai mudar a vida de ninguém. Serve para uma sexta à noite com uma taça de vinho, e já é bastante. Mas eu saí de lá com uma pergunta que não estava no roteiro delas: quantas das minhas opiniões eu escolhi de fato, e quantas eu simplesmente recebi de onde eu vim e passei a defender como se fossem convicções?
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Terminando a janta, a minha esposa liga o YouTube e começa a tocar um podcast com duas mulheres de quem eu nunca tinha ouvido falar na vida: Flávia Viana e Menina Veneno. Eu estava no meio de outra coisa, projetando na cabeça um projeto novo que talvez vocês conheçam um dia e talvez não. Por algum motivo, aquela conversa me pareceu interessante o suficiente para eu largar o prato, sentar do lado dela e assistir.
Em pouco tempo uma das duas falou de hiperfoco. Falou que não consegue prestar atenção em certas coisas, que a cabeça vai embora sozinha. Para quem tem TDAH, aquilo é uma língua conhecida — você não precisa de laudo nenhum para reconhecer o próprio sotaque na boca de um estranho. A outra pensa de outro jeito. Vai de A para B, e o caminho é mais ou menos o que você imaginava que seria. Não é menos inteligente por isso; é previsível de um jeito que a primeira nunca seria.
Passei um bom tempo do episódio achando que estava observando isso: a diferença entre uma cabeça que anda em linha reta e uma que salta. Depois percebi que estava observando outra coisa.
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As duas falam de lugares diferentes, e não é só o assunto. A Menina Veneno vem do interior, e a cartilha do interior é mais informal, mais improvisada, mais simples. Ninguém cobra dela um registro formal: ela pode debochar, pode cortar o assunto no meio, pode dizer a coisa errada e seguir em frente. A Flávia carrega a cartilha da cidade grande, onde é preciso caber numa narrativa, falar de um certo ponto de vista, manter um certo comportamento. Eu duvido que ela tenha escolhido isso. Duvido até que tenha percebido. A forma como ela se expressa não é propriamente dela: é da cidade onde ela precisou aprender a se expressar.
E aí está a parte que interessa. A gente ouve as duas e chama uma de autêntica e a outra de ensaiada. Mas nenhuma das duas escreveu a própria cartilha. Uma recebeu a permissão de improvisar, a outra recebeu a obrigação de se enquadrar, e as duas cumprem o que receberam com a mesma obediência. Autêntico, quase sempre, é só o nome que a gente dá para a cartilha que por acaso agrada a gente.
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Ficou ainda um detalhe na minha cabeça, e é ele que desmonta metade do que eu acabei de escrever. A Menina Veneno contou que muita gente que conversa com ela pessoalmente diz não reconhecer ali a mesma pessoa debochada das redes. Ela não negou nem se defendeu. Disse que sabe ser séria, que consegue conversar sobre vários assuntos, mas que não é assim que ela escolhe falar com o público dela — e falou disso com respeito por esse público, não com desprezo. Quer dizer: ela conhece a própria cartilha. Pegou o que recebeu do interior e transformou em instrumento. Escolheu, mantém, e sabe exatamente o que está fazendo.
Isso inverte a conta. Eu tinha separado as duas em improvisada e enquadrada, quando a diferença que importava era outra: uma sabe que está usando uma cartilha, e a outra, talvez, não. A que parecia mais espontânea era a mais deliberada das duas.
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Agora a parte constrangedora.
Eu assisti ao episódio espaçado. Uns minutos na tela, uns minutos na minha cabeça, pensando justamente no projeto que eu tinha largado para sentar no sofá. Quer dizer: eu diagnostiquei a atenção alheia sem conseguir sustentar a minha por dez minutos seguidos. Se elas falaram mais besteira do que eu vi, alguém me corrija, porque eu não estava lá inteiro. E fiz tudo isso com a segurança de quem está vendo de fora, quando na verdade eu estava vendo pela metade.
A minha cartilha também não é minha. É a do sujeito que passou a vida lendo pessoas e que, por isso, acha que ler é a mesma coisa que entender. Diante de duas estranhas conversando por três horas, a primeira coisa que eu fiz foi classificar: essa é assim, aquela é assado. Não me ocorreu, em momento nenhum, simplesmente escutar. Isso não é lucidez, é hábito. E hábito de boa reputação é o mais difícil de enxergar, porque se apresenta como virtude. O critério que sobrou, no fim, não é quem é autêntico e quem é ensaiado. É quem sabe que está usando uma cartilha e quem acha que está sendo apenas si mesmo.
O episódio, aliás, não vai mudar a vida de ninguém. Tem coisa interessante e tem bobagem, na proporção de qualquer conversa longa entre duas pessoas que se gostam. Serve para uma sexta à noite com uma taça de vinho, e já é bastante. Mas eu saí de lá com uma pergunta que não estava no roteiro delas: quantas das minhas opiniões eu escolhi de fato, e quantas eu simplesmente recebi de onde eu vim e passei a defender como se fossem convicções?