Filosofia da Lucidez
Letra

A Cartilha e o Casal

Quem deve manter a dominância no relacionamento: o homem ou a mulher?

Se você reparar com calma, o erro dessa pergunta é a própria pergunta.

Mas antes de dissolvê-la, deixe-me contar uma história.

Um casal de amigos nossos vivia um período raro: fazia mais de um ano que não havia entre eles nenhum tipo de briga. A casa, simplesmente, funcionava.

Então eles procuraram uma nova terapeuta. E a terapeuta orientou a esposa a tomar o controle das decisões da casa — desde as mínimas coisas. Ajudou-a a identificar que o marido, nos pequenos detalhes, carregava os resquícios do machismo da nossa sociedade, e que ela podia estar sofrendo sem perceber.

No dia seguinte, ela acordou, abriu os olhos e entendeu que aquela casa era domínio dela. Ela é que deveria decidir a que horas assistir ao filme. A que horas fazer as coisas. Ela não podia deixar aquilo tomar conta da vida dela.

Seguindo a cartilha, não durou. O relacionamento — que passara mais de um ano em paz — virou, em questão de dias, um completo caos.

E aqui está o detalhe que não me sai da cabeça: a casa estava em harmonia antes do diagnóstico. Foi o diagnóstico que fabricou a doença. Quem procura dominação em cada gesto acaba encontrando — e, ao encontrar onde não havia, acaba produzindo.

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Antes que me entendam mal, uma justiça necessária.

Seria um erro falar de feminismo sem falar dos seus avanços. Da década de cinquenta até hoje, as conquistas foram notáveis — a liberdade das mulheres, o direito ao voto, e tantas outras coisas que hoje nos parecem óbvias justamente porque alguém lutou por elas quando ainda não eram.

Mas existe um feminismo? Não. Existem pelo menos quatro vertentes principais, e muitas discordam entre si. E isso é normal: todos os movimentos humanos, todas as instituições humanas, acabam se ramificando — porque o pensamento humano é plural, e as pessoas discordam umas das outras. Todas as religiões têm vertentes; algumas, milhares. Não é defeito. É a assinatura de tudo o que é humano.

Só que há outra assinatura de tudo o que é humano: nenhuma vertente acerta em tudo.

O problema daquela terapeuta não era ser feminista. O problema não era nem a terapia — boa terapia salva casamentos todos os dias. O problema era a cartilha: a diferença entre a terapeuta que observa aquele casal, na sua realidade concreta, e a que aplica um molde pronto a todos os casais do mundo.

E há aqui uma ironia que me parece o coração deste ensaio.

O modelo tradicional dizia: o homem manda, porque é homem. A orientação que aquele casal recebeu dizia: a mulher manda, porque é mulher. Trocou-se o sujeito da frase e manteve-se a gramática. Nos dois casos, a autoridade dentro de casa é distribuída por categoria — decidida antes de conhecer as duas pessoas que moram ali.

Não estou dizendo que as duas coisas pesem igual: o modelo antigo teve séculos de lei e de instituição a seu favor; aquela terapeuta tinha boa intenção e uma sessão. A simetria é de estrutura, não de gravidade.

Mas a estrutura é justamente o que passa despercebido. E isso não é um defeito do feminismo — é a armadilha de todo movimento que nasce contra algo. O inverso de uma regra ainda é uma regra. Quem passa muito tempo brigando com um molde corre o risco de aprender a pensar em moldes.

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E aqui a pergunta inicial começa a se dissolver.

Talvez quem deva conduzir a casa não seja o homem nem a mulher — mas aquele que é naturalmente mais inclinado a conduzir. Nós temos perfis psicológicos diferentes. Há pessoas mais analíticas, mais críticas, com visão de longo prazo, com uma personalidade mais apta para carregar certas decisões. E essa pessoa pode ser um homem. Ou uma mulher.

Na minha família, aliás, o caso é clássico: desde a minha bisavó, foram muitas as mulheres que tomaram esse papel dentro de casa. E as coisas podem se inverter a cada geração, a cada casal — porque cada casal é único, cada pessoa é única, e os papéis são únicos.

Um pode ter o papel mais pragmático. O outro, o mais intuitivo — que não decide diretamente, mas modela as decisões de outra forma, pelo famoso soft power. Quem já viveu um bom casamento sabe: a palavra final raramente é a palavra decisiva.

E a beleza dessa conclusão é que ela não precisa de cartilha nenhuma. Ela é orgânica. Vai sendo moldada, com o tempo, pelo perfil de cada um — como a água encontra o próprio leito.

A liderança natural não precisa ser imposta. E o que precisa ser imposto não é natural.

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— Ah, André, mas eu tive um relacionamento assim, e não deu certo.

Compreendo. E é aqui que preciso ser honesto com as nuances — porque falamos muito, nestes textos, sobre a complexidade da mente humana.

Talvez o problema não fosse o arranjo, mas outra coisa. Alguns homens têm, sim, essa inclinação para conduzir — mas de forma nociva: abusam dela para interesses egoístas, e são incapazes, ou imaturos demais naquele momento da vida, para liderar de uma maneira que beneficie os dois. Isso acontece. E quando acontece, conduzir vira dominar — que é exatamente o que a liderança natural não é.

E às vezes a pessoa simplesmente não está apta, naquela fase da vida, a sustentar um relacionamento. Ou não tem uma personalidade que te agrade, que te faça feliz. Compreendo que é difícil manter uma relação assim — e romper pode ser o caminho ideal. Mas os relacionamentos são complexos; às vezes, tentar também é.

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No fim, a regra é que não existem regras — e não digo isso por relativismo, mas por matemática.

Um ser humano sozinho já é complexo demais para caber numa cartilha. Dois seres humanos juntos não somam as suas complexidades: multiplicam. Ditar uma regra única para todos os relacionamentos do mundo é tentar resolver uma equação quase impossível.

A cartilha promete a resposta pronta, igual para todos.

Mas cada casal é uma pergunta que só ele mesmo pode responder.