Hvar, manhã. Tínhamos acabado de chegar e subíamos as escadas rumo à nova estadia na ilha, os primos já preparados para curtir mais um dia de verão, quando minha prima me fez a pergunta que eu não esperava receber ali.
Ela queria saber o que eu penso sobre as formas de governo. Democracia, monarquia, aristocracia, oligarquia. O capitalismo no qual estamos todos inseridos — ela na Europa, eu no Brasil. Qual seria o melhor sistema.
Desconfio que a tenha decepcionado um pouco. Ela esperava uma direção, um norte, e o que eu ofereci foram nuances.
Não foi falta de convicção. Foi quase o contrário: é justamente por ter algumas convicções que eu sei exatamente o tamanho delas.
A primeira coisa que eu disse é que não existe resposta exata. Não existe o melhor sistema no vácuo. Existe, no máximo, aquilo que funciona — e funciona ali, naquele povo, naquela hora, com aquela história nas costas. O que funciona na minha geração pode não funcionar na geração dos meus filhos. O que funciona no Brasil de hoje não funcionaria no Brasil de quinhentos anos atrás. E as leis, os arranjos e as instituições que funcionam na Europa ou nos Estados Unidos não produzem os mesmos resultados apenas por serem aplicadas em outro lugar. Apenas aplicadas.
Isso não significa que eu não tenha nada a dizer. Tenho. Só não confundo convicção com certeza.
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A primeira delas é esta: por pior que seja a democracia à qual estamos acostumados, seria pior sem ela.
Uma pessoa com poder absoluto pode até ser boa na nossa geração. Pode ser justa, competente, admirável. O problema nunca foi ela — foi quem vem depois. A história mostra que os sucessores quase nunca são tão bons quanto o antecessor, e às vezes são péssimos. O Império Romano ilustra isso bem, e foi o exemplo que dei a ela. Teve imperadores aclamados, lembrados com gratidão por gerações. E teve outros tão devastadores que a própria população, em desespero, arquitetava planos para matá-los. A eles e às suas famílias.
A democracia não garante um bom governante. Ela garante outra coisa, bem mais modesta: que alguém que você escolheu possa ser trocado, quatro ou oito anos depois, por alguém menos pior. É pouco. Mas é o suficiente para que a alternativa não precise ser o desespero.
A segunda convicção é que nós estamos em processo permanente de aprendizado, e isso vale tanto para pessoas quanto para povos.
Se o modelo ideal de administração existisse e fosse aplicado hoje sobre uma população que ainda não amadureceu o bastante para assimilar suas vantagens e desvantagens, ele provavelmente seria rejeitado. Não por ser ruim. Por ser cedo.
E há uma parte disso que eu gostaria que não fosse verdade: quando estamos convencidos de uma ideia enganosa, muitas vezes não sobra alternativa senão cometer o erro para descobrir que estávamos enganados. Infelizmente o aprendizado humano é caro desse jeito. Nações inteiras já pagaram essa mensalidade.
A terceira convicção é a que eu defendo com mais firmeza. Qualquer sistema — e principalmente o capitalista, no qual estamos inseridos — precisa proteger aqueles que ficam à margem. Garantir um piso de dignidade mínima.
Não porque isso resolva tudo, porque não resolve. Sempre haverá quem se aproveite, sempre haverá quem escape pelas frestas. Mas é justamente isso que faz com que mais gente caiba dentro do sistema. E gente que cabe não precisa querer derrubá-lo.
Menos revolta popular. Menos pessoas desesperadas o bastante para apostar em soluções radicais e não democráticas. Menos conflito social, menos roubo, menos emigração em massa de regiões que deveriam ter sido fortalecidas. E, sobretudo, menos espaço para que o crime organizado ofereça exatamente aquilo que o Estado deixou de oferecer — porque alguém sempre oferece. O vazio nunca fica vazio.
Essa é a parte que eu sustento com menos números e mais convicção. Proteger quem ficou de fora me parece ser, simplesmente, o que Jesus faria se estivesse por aqui.
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E como a conversa já tinha chegado a Jesus, ela foi para outro lugar. Aqui eu preciso avisar que o que vem a seguir é palpite. Interpretação minha, e nada além disso. Não me considero alguém que estudou o suficiente para dar uma resposta, e desconfio que nenhum ser humano consiga dar uma resposta exata sobre isso. Porém, se existe uma verdade — e eu acredito que sim —, algumas certamente devem se aproximar mais dela do que outras. Por mais que eu não saiba dizer quais são, entre as muitas variações possíveis, ela deve estar em algum lugar.
Mas fico pensando se aquilo que está na Bíblia não faz muito mais sentido do que conseguimos enxergar no curto prazo.
Governos humanos sempre terão problemas. Nunca haverá o modelo perfeito, porque não existe material perfeito para construí-lo — o material somos nós.
E quem sabe Deus não tenha nos colocado aqui com toda essa liberdade, nós, descendentes dos rebeldes do Éden, exatamente para isto: para que descobríssemos por conta própria, sem que ninguém precisasse nos dizer, que governar a nós mesmos é muito mais complicado do que um dia imaginamos que seria. E que talvez seja necessária essa descoberta — essa humildade construída no erro — para que um dia aceitemos ser governados por algo que não sejamos nós.
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Chegamos lá em cima sem resposta nenhuma. Minha prima queria uma direção e eu não tinha nenhuma para oferecer.
Mas se ela tiver levado daquela escada apenas a desconfiança de quem afirma ter certeza absoluta sobre a forma correta de nos governarmos, já terá levado mais do que o suficiente para aquele momento. E, no fim das contas, se mais pessoas no mundo carregassem a convicção de que, por mais forte que seja o sentimento de estar certo, ainda assim é possível estar errado, seria uma humanidade bem mais simples de governar. Inclusive por nós mesmos.