Filosofia da Lucidez
Letra

A Fila em que Nunca Estive

O Brasil é um país de filas. Fila do posto de saúde antes do amanhecer, fila da vaga na creche, fila do CRAS, fila da senha que acaba antes de chegar a vez. Milhões de brasileiros conhecem essas filas pelo nome, pelo número, pela hora em que é preciso acordar para ter alguma chance. Eu não conheço nenhuma delas por dentro. E é exatamente daí que este ensaio parte: da fila em que nunca estive.

Nunca estive nela porque nunca precisei. E nunca precisei por uma sequência de fatos que não carregam nenhum mérito meu. Todo início de ano, o material escolar chegava completo. Estudei em colégio pago. Atravessei a juventude inteira com uma única obrigação: estudar. Cheguei à faculdade com um luxo que na época me parecia natural e hoje sei que é raríssimo — a liberdade de escolher o curso por vocação, e não pela mensalidade que cabia no bolso ou pelo ônibus que passava perto. Tinha até carro próprio. Nada luxuoso, mas o bastante para estudar com calma, sem atravessar a cidade em duas conduções.

Nada disso foi decisão minha. Aos sete anos, eu não assinei contrato nenhum. Não escolhi a família em que nasci, a cidade, o país, o século. Não negociei as condições da minha largada. Elas me foram entregues prontas, como um presente que a gente recebe antes de saber que é presente.

A filosofia tem um nome para isso: sorte moral. E a pergunta que ela impõe é desconfortável de propósito: quanto daquilo que chamo de "meu mérito" são, na verdade, juros de um capital inicial que me foi dado de graça?

Que ninguém me entenda mal. Esforço existe, e é real. Eu estudei, trabalhei, empreendi, errei, recomecei. Não estou dizendo que dedicação não conta — estou dizendo que ela não explica tudo. O esforço é um multiplicador, e multiplicador nenhum opera sobre o zero. A mesma disciplina que me trouxe até aqui, aplicada por um menino que aos catorze anos precisava trabalhar para ajudar em casa, produziria outro resultado. Não por diferença de caráter. Por diferença de largada.

É por isso que existe uma coisa que não me entra na cabeça: a recusa à ideia de justiça social vinda de quem largou de onde eu larguei. Quando uma parte dos meus impostos financia um piso mínimo para quem partiu de muito atrás, eu não consigo enxergar confisco. Enxergo a parcela de uma dívida que não tenho como pagar a quem me deu — meus pais, minhas circunstâncias, minha sorte — e que, por isso mesmo, só posso pagar adiante. Não me vejo no direito de recusar.

Sei das objeções. Conheço todas, porque já as ouvi de gente que largou do mesmo lugar que eu.

A mais repetida diz que "tem gente que recebe para não trabalhar". Convido quem afirma isso a fazer uma conta simples. O benefício médio do Bolsa Família gira em torno de seiscentos e setenta reais por família — não por pessoa: por família —, menos da metade de um salário mínimo. Ninguém constrói projeto de vida sobre esse valor; ele não paga o custo de existir nem para quem more debaixo de uma ponte. O que esse dinheiro faz é outra coisa: impede que o imprevisto vire tragédia. Porque a vida não é estável para ninguém, e a coisa mais fácil do mundo é uma família atravessar uma dificuldade financeira — uma doença, uma demissão, uma safra perdida. A diferença é que, para alguns, a dificuldade é um susto. Para outros, é fome.

Existe, porém, uma objeção mais séria, e ela merece resposta séria. Economistas apontam que benefícios mal desenhados podem criar armadilhas: o medo de perder tudo ao formalizar um emprego pode desestimular exatamente aquilo que se quer estimular. É verdade. E é por isso que o programa hoje conta com uma regra de transição, que mantém metade do benefício por um período quando a renda da família sobe — uma rampa de saída, para que melhorar de vida não seja punido. Pode melhorar? Pode, e deve. Mas repare na natureza desse argumento: ele pede que se desenhe melhor a rampa. Não pede que se demola a escada.

E há a objeção dos desvios. Sim, existem fraudes — como existem em empresas privadas, em ONGs, em emendas parlamentares, em bancos, em igrejas, em toda instituição onde haja seres humanos. Diante dos desvios em cada uma delas, a resposta civilizada é sempre a mesma: auditoria, correção, reforma. Ninguém propõe fechar os bancos porque houve fraude num banco. Curioso é notar que existe um único tipo de programa para o qual a imperfeição vira sentença de morte. Não vou atribuir intenções a ninguém; cada leitor conhece o próprio coração. Deixo apenas a pergunta, para ser respondida em silêncio: por que a régua muda de tamanho exatamente quando quem está na ponta é pobre?

Há ainda um fato que costuma passar despercebido nas discussões acaloradas — e talvez seja o mais eloquente de todos.

O programa que hoje se chama Bolsa Família atravessou governos que não concordam em quase nada. Nasceu em partes no governo Fernando Henrique, com o Bolsa Escola e seus irmãos. Foi unificado e expandido no governo Lula. Foi rebatizado de Auxílio Brasil — com valor ampliado — no governo Bolsonaro. E voltou ao nome original em seguida. Campos políticos que se acusam mutuamente de destruir o país, quando sentaram na cadeira, decidiram todos a mesma coisa: manter. Adversários que divergem sobre tudo convergiram, no exercício do poder, num único ponto — este piso deve existir. Quando a caneta está na mão e a realidade do país inteiro se impõe, o consenso aparece. Isso não é bandeira de um partido. É, talvez, a política pública mais suprapartidária que o Brasil já produziu.

E quanto custa esse consenso? Muito menos do que o barulho sugere. De cada cem reais do Orçamento total da União, menos de dois e cinquenta vão para o programa. Olhando apenas para o que o governo de fato gasta no ano — excluída a rolagem da dívida —, pouco mais de três em cada cem. Não trinta. Não cinquenta. Três. Para trazer à escala de uma casa: se o governo fosse uma família com renda de três mil reais por mês, o Bolsa Família custaria cerca de cem reais — e esses cem reais alcançariam quase um em cada quatro brasileiros. Há gordura para cortar no Estado brasileiro? Há, e muita — privilégios, penduricalhos, estruturas que ninguém audita com a mesma fúria. O que não compreendo é a mira: entre tantos gastos que sustentam quem está por cima, escolher como alvo justamente os três por cento que seguram quem está por baixo.

Meu voto — não o da urna; o do coração — é que um dia a disputa política brasileira seja outra. Que os dois lados briguem para provar quem cuida melhor de quem ficou de fora, de quem vive à margem, de quem não consegue sequer chegar ao balcão. Uma guerra de generosidade, não de acusação. Enquanto a disputa for sobre quem acusa melhor os mais vulneráveis, seguiremos confundindo dureza com seriedade.

As Escrituras avisam que, num certo ponto da história, "por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará" (Mateus 24,12). Durante muito tempo li esse versículo como profecia sobre os outros. Hoje o leio como aviso para mim.

Porque o esfriamento não chega anunciado. Ele chega disfarçado de argumento razoável, de planilha, de "não é problema meu". Ninguém percebe o próprio coração esfriando; percebe apenas que as filas dos outros foram ficando, ano após ano, mais abstratas — até virarem estatística, depois incômodo, depois inimigo.

Contra isso, só conheço uma disciplina: lembrar todos os dias da fila em que nunca estive. E lembrar que não estar nela nunca foi mérito meu.