Uma pergunta da minha prima na hora da despedida, uma cruz num morro de Split e uma conversa sobre a igreja que ela frequenta em Londres. Dali saiu uma pergunta que eu não tinha coragem de fazer em voz alta: por que sabemos exatamente o que pensar sobre um casal que não fez mal a ninguém, e nunca sobre a fofoca que destrói uma reputação numa tarde?
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Era o último dia. Íamos em direção ao porto quando minha prima se virou e perguntou: ué, não vai ter texto hoje? Cadê o texto? Observei os próprios pensamentos à procura de alguma coisa que estivesse se formando ali e não havia nada — um vazio limpo, sem nenhum fio para puxar. Respondi que não era todo dia. Ela disse que eu tinha acostumado a família errado.
Nos despedimos pouco depois, sem saber até quando. Eles ficaram na ilha; eu embarquei. E foi ali dentro, com a costa se afastando, que veio o estalo: eu não tinha escrito nada sobre a nossa primeira conversa. O texto estava ali desde o começo. Só não apareceu na hora em que foi pedido.
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Tinha sido no primeiro dia, em Split, quando subimos o Marjan. Lá em cima havia uma cruz voltada para o mar e o sol descendo atrás dela. Ela mora em Londres há alguns anos e frequenta uma igreja anglicana; eu disse que me parecia digna de nota a disposição de acolher casais homossexuais sem exigir que deixassem de ser o que são. Ela me corrigiu: não foi assim tão simples, não houve consenso. Houve uma decisão formal tomada acima, a ordem desceu, e cada comunidade se acomodou como pôde. O que de longe parece uma posição institucional é, de perto, uma costura ainda malfeita.
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Contei a ela de onde vem a minha posição, que não veio de leitura nem de doutrina. Sempre fui curioso a ponto de ser inconveniente. Quando jovem, nas primeiras vezes em que convivi com pessoas assumidamente homossexuais — numa época em que assumir-se ainda custava caro —, eu perguntava sem rodeios: você se tornou assim ou sempre foi? Você lembra de ter escolhido?
Ninguém me respondeu que escolheu. Nem uma pessoa. Todos descreviam a mesma coisa por caminhos diferentes: a sensação precoce de ser diferente, a primeira paixão que já apontava para onde apontava. Não era uma decisão que eles lembrassem de ter tomado. Era uma constatação que eles lembravam de ter feito.
Isso não prova nada sobre biologia, e não estou dizendo que existe um gene, porque não existe. Estou dizendo algo mais modesto e mais firme: seja lá o que produza isso, não foi escolha. E, para uma questão moral, é a deliberação que importa.
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Sobre Paulo, existem hoje duas interpretações sérias em disputa, e pessoas honestas estão dos dois lados. Mas o argumento que me interessa não depende de vencer essa disputa — ele funciona dos dois lados dela.
Suponha que a leitura mais rigorosa esteja certa. Suponha que seja pecado. Que seja, então. Ainda assim teremos de concordar em uma coisa: há pecados muito piores, que produzem danos mensuráveis, que praticamos diariamente e sobre os quais quase ninguém prega. Falar mal de quem não está presente. A fofoca sobre quem é e quem não é. A mentira conveniente. O julgamento apressado que destrói uma reputação em uma tarde. Essas coisas deixam vítimas, e as vítimas são localizáveis: têm nome, endereço, noites sem dormir.
E um casal que não faz mal a ninguém? Que às vezes adota a criança que um casal heterossexual abandonou?
Quando eu disse isso a ela, ela respondeu na hora: é verdade.
É a assimetria que não se sustenta. E não é uma objeção moderna à fé — é uma objeção interna a ela. Cristo não deixou uma palavra registrada sobre relações entre pessoas do mesmo sexo, e falou muito, quase sem descanso, sobre julgamento, hipocrisia e o hábito de examinar o olho alheio. Se distribuíssemos nossa atenção moral na proporção em que Ele distribuiu a Dele, falaríamos da fofoca todos os domingos e do resto quase nunca.
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Não tenho nada que comprove a minha tese, e a apresento como o que é: uma suspeita. Suspeito que a diferença seja parte da criação, e não um desvio dela. Do que decorre uma consequência que corta para os dois lados: não deveríamos trabalhar para diminuir esse número, nem para aumentá-lo. Não é nosso. Não fomos consultados.
Mas há um número sobre o qual temos sim o dever de agir, e ele não tem nada de natural. Quem é homossexual adoece mais, se deprime mais e tenta contra a própria vida com frequência muito maior. E o que a pesquisa mostra com clareza quase brutal é que o fator decisivo não é a orientação: é a rejeição. Jovens rejeitados pela própria família chegam a ter risco várias vezes maior do que os que são acolhidos. O sofrimento não vem de como eles nasceram. Vem de como foram recebidos.
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Não está escrito em lugar nenhum que devemos amar o semelhante. Está escrito o próximo. E o próximo não é o parecido, não é a família, não é quem confirma o que já pensávamos. O próximo é quem vem na forma que não esperávamos — inclusive na forma de alguém que discorda de nós, que responde à nossa pergunta com uma correção em vez de uma concordância.
Minha prima me corrigiu naquele morro. Aquela foi a parte mais útil da conversa.
Faço a operação de me imaginar nascido na pele alheia e não consigo encontrar a condenação. Encontro duas pessoas que não fizeram mal a ninguém. E encontro, muito mais perto de mim do que gostaria, todos os pecados dos quais nunca falamos.
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Era o último dia. Íamos em direção ao porto quando minha prima se virou e perguntou:
— Ué, não vai ter texto hoje? Cadê o texto?
Parei e fiz o que costumo fazer nessas horas: observei os próprios pensamentos, à procura de alguma coisa que estivesse se formando ali. Não havia nada. Um vazio de ideias, limpo, sem nenhum fio para puxar. Respondi que não era todo dia, que não era todo momento — que existem momentos de inspiração e existem os outros, e que os outros são a maioria.
— Ah, então você acostumou a gente errado. Eu queria que fosse todo dia.
Nos despedimos pouco depois, sem saber até quando. Eles ficaram na ilha; eu embarquei. E foi ali dentro, já com a costa se afastando e o grupo reduzido ao tamanho de sempre, que veio o estalo: eu não tinha escrito nada sobre a nossa primeira conversa. O texto estava ali desde o começo. Só não apareceu na hora em que foi pedido.
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Tinha sido no primeiro dia, em Split, quando subimos o Marjan. Lá em cima havia uma cruz voltada para o mar, e o sol descendo atrás dela. Ficamos um tempo ali, e a conversa foi para onde conversas vão quando se está diante de uma cruz e não se tem pressa.
Ela mora em Londres há alguns anos e frequenta uma igreja anglicana. Eu tinha pesquisado sobre o anglicanismo antes da viagem, e disse a ela que havia uma coisa que me parecia digna de nota: a disposição de acolher casais homossexuais sem exigir que deixassem de ser o que são.
Ela me corrigiu. Não foi assim tão simples, disse. Não houve consenso. Houve uma decisão formal tomada acima, e depois a ordem desceu, e cada comunidade teve que se acomodar como pôde. Algumas se acomodaram bem. Outras nem tanto. O que de longe parece uma posição institucional é, de perto, uma costura ainda malfeita, com pontos frouxos por toda parte.
Achei aquilo mais interessante do que a versão simplificada que eu tinha na cabeça. Instituições humanas não mudam de opinião; elas mudam de peso, devagar, com partes de si resistindo.
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Contei a ela de onde vem a minha posição, que não veio de leitura nem de doutrina.
Sempre fui curioso a ponto de ser inconveniente. Quando jovem, nas primeiras vezes em que convivi com pessoas assumidamente homossexuais — numa época em que assumir-se ainda custava caro —, eu perguntava. Perguntava sem rodeios: você se tornou assim ou sempre foi? Você lembra de ter escolhido?
Ninguém me respondeu que escolheu. Nem uma pessoa. Todos descreviam a mesma coisa por caminhos diferentes: a sensação precoce de ser diferente, a primeira paixão que já apontava para onde apontava, o gosto por coisas que ninguém tinha ensinado a gostar. Não era uma decisão que eles lembrassem de ter tomado. Era uma constatação que eles lembravam de ter feito.
Isso não prova nada sobre biologia. Não estou dizendo que existe um gene, porque não existe — e quem afirma que existe está indo além do que a ciência sustenta. Estou dizendo algo mais modesto e, me parece, mais firme: seja lá o que produza isso, não foi escolha. E há muita coisa a respeito da alma, da consciência e daquilo que somos antes de sabermos que somos que continua inteiramente em aberto.
Não preciso saber a causa para saber que não houve deliberação. E, para uma questão moral, é a deliberação que importa.
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Sobre Paulo, eu disse a ela o que penso, sabendo que não é a única leitura possível.
Existem hoje duas interpretações sérias em disputa, e pessoas honestas estão dos dois lados. Uma delas sustenta que o que Paulo tinha diante dos olhos não era o que temos hoje diante dos nossos — não a união estável entre dois adultos, mas o abuso, a exploração, a relação sem paridade possível. Não vou fingir que essa leitura é pacífica, porque não é; ela tem objeções conhecidas e não desprezíveis.
Mas o argumento que me interessa não depende de vencer essa disputa. Ele funciona dos dois lados dela.
Suponha que a leitura mais rigorosa esteja certa. Suponha que seja pecado. Que seja, então. Ainda assim teremos de concordar em uma coisa: há pecados muito piores, que produzem danos mensuráveis, que praticamos diariamente e sobre os quais quase ninguém prega.
Falar mal de quem não está presente. A fofoca sobre quem é e quem não é. A mentira conveniente. O julgamento apressado que destrói uma reputação em uma tarde. Essas coisas deixam vítimas, e as vítimas são localizáveis: têm nome, endereço, noites sem dormir.
E um casal que não faz mal a ninguém? Que às vezes adota a criança que um casal heterossexual abandonou?
Quando eu disse isso a ela, ela respondeu na hora: é verdade.
É a assimetria que não se sustenta. Não é uma objeção moderna à fé; é uma objeção interna a ela. Cristo não deixou uma palavra registrada sobre relações entre pessoas do mesmo sexo, e falou muito — insistentemente, quase sem descanso — sobre julgamento, hipocrisia e o hábito de examinar o olho alheio. Se fôssemos distribuir nossa atenção moral na proporção em que Ele distribuiu a Dele, falaríamos da fofoca todos os domingos e do resto quase nunca.
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Não tenho nada que comprove a minha tese, e a apresento como o que é: uma suspeita.
Suspeito que a diferença seja parte da criação, e não um desvio dela. A grande maioria das pessoas nasce heterossexual; uma parcela menor, não. E essa proporção parece atravessar as sociedades sem grande alteração, embora eu confesse não saber com que precisão medimos uma coisa dessas. Se ela é assim, talvez seja assim porque tinha de ser — e não porque alguém errou.
Do que decorre uma consequência que corta para os dois lados: não deveríamos trabalhar para diminuir esse número, nem para aumentá-lo. Não é nosso. Não fomos consultados.
Mas há um número sobre o qual temos sim o dever de agir, e ele não tem nada de natural. Quem é homossexual adoece mais, se deprime mais e tenta contra a própria vida com frequência muito maior — os estudos falam em duas a cinco vezes mais. E o que a pesquisa mostra, com uma clareza quase brutal, é que o fator decisivo não é a orientação: é a rejeição. Jovens que sofrem rejeição familiar chegam a ter risco várias vezes maior do que os que são acolhidos. O sofrimento não vem de como eles nasceram. Vem de como foram recebidos.
Isso não é pauta de época. É a única parte da história sobre a qual temos responsabilidade direta.
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Não está escrito em lugar nenhum que devemos amar o semelhante.
Está escrito o próximo. E o próximo não é o parecido, não é a família, não é quem confirma o que já pensávamos. O próximo é quem vem na forma que não esperávamos — inclusive na forma de alguém que discorda de nós, que sustenta uma leitura que nos incomoda, que responde à nossa pergunta com uma correção em vez de uma concordância.
Minha prima me corrigiu naquele morro. Aquela foi a parte mais útil da conversa.
Amar o próximo é um dos dois mandamentos que Cristo colocou acima de todos os outros, e é o mais difícil dos dois precisamente porque o outro é abstrato e este tem rosto. Exige a única operação mental que nunca fica fácil: imaginar-se nascido na pele alheia, com a vida alheia, com as inclinações que a gente não escolheu.
Faço isso e não consigo encontrar a condenação. Encontro duas pessoas que não fizeram mal a ninguém.
E encontro, muito mais perto de mim do que gostaria, todos os pecados dos quais nunca falamos.