Filosofia da Lucidez
Letra

A Vitrine e a Folga

Faz exatamente quinze dias que parei de tomar o remédio para o TDAH. O primeiro efeito não demorou: os sintomas voltaram. E com eles voltou o hiperfoco, essa capacidade estranha que o cérebro tem de agarrar uma coisa e não soltar mais.

Sem aquilo que o acalmava, minha cabeça saiu procurando emoção por todos os lados. E encontrou a de sempre: carros. De repente eu estava abrindo anúncio atrás de anúncio, imaginando trocar um dos meus. E eram justamente carros que escolhi com muita calma, que ainda rodam perfeitamente por mais alguns anos e me dão exatamente o conforto de que gosto. Não faltava nada. Mas o cérebro não queria o que faltava. Queria emoção.

No meu caso são carros. Para outra pessoa pode ser um apartamento maior, uma reforma, o celular do ano. O objeto muda, mas o mecanismo é o mesmo.

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Para minha sorte, ou azar, tenho um lado racional que não me deixa decidir só pelo emocional. Os dois brigam, e qualquer decisão precisa ser muito bem negociada entre eles. Nessa negociação ficou claro que havia duas coisas em cima da mesa: o que eu mais queria no momento e o que eu mais quero na vida.

No momento, o que eu queria era subir de segmento. E não vou fingir que isso não traz emoção. Traz, e não só no dia da compra: traz na procura, que eu adoro, e continua trazendo ao longo dos anos.

Na vida, o que eu mais quero é outra coisa: liberdade e tranquilidade. Quero poder trabalhar naquilo em que acredito, sem ser por pressão. E liberdade e tranquilidade nunca são demais. Para mim, elas são também o que mantém meus textos, livros e vídeos independentes. Quando o conteúdo precisa pagar as contas, a tentação de apelar é enorme: encurtar, simplificar, transformar em produto. Eu quero continuar escrevendo na profundidade que o assunto pede, e não na que vende.

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Tem um detalhe que quase ninguém põe na conta. Subir de segmento não é só um gasto maior: é um padrão novo, que você passa a manter para sempre. E padrão de consumo tem uma característica cruel: sobe com facilidade e desce doendo. Depois que você se acostuma, qualquer recuo parece perda.

A folga que mantenho, ao contrário, não aparece na garagem. Ela apareceu há pouco tempo, quando surgiu uma viagem ao Rio com amigos que não estava nos planos e a resposta pôde ser sim na hora. Aparece quando um amigo quer ir junto mas não está num bom momento, e dá para ajudar. Aparece quando surge um projeto que vale a pena e eu não preciso pedir licença ao saldo para entrar nele. É essa folga que transforma liberdade de ideia em liberdade de fato.

Postas as duas coisas lado a lado, a direção ficou clara. Minhas escolhas, do jeito que estão, estão ótimas.

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Talvez este seja o meu primeiro texto com cara de autoajuda, e não tenho nada contra o gênero: se alguém se beneficiar, é isso que importa. Se escrevo meio a contragosto, é por outro motivo. Eu não aguentava mais esse assunto girando na cabeça, e escrever foi o jeito que encontrei de fazer o hiperfoco finalmente soltar.

Sei que nem todo mundo tem um lado racional tão briguento quanto o emocional, e às vezes a ajuda precisa vir de fora. Por isso deixo aqui a pergunta que me ajudou:

Suas escolhas de agora, principalmente o que você compra e o padrão que você mantém, estão indo ao encontro do que você mais quer no momento ou do que você mais quer para a sua vida?