Filosofia da Lucidez
Letra

Braços Abertos

Digo isto — porque antes de ser escrito, foi dito — olhando para um céu azul. Não é figura de linguagem. Estou de braços abertos, de frente para um céu limpo, e o que sinto é gratidão. Este texto nasceu exatamente nessa postura, e talvez só possa ser lido assim: como algo dito por alguém que, naquele instante, não estava teorizando sobre a felicidade. Estava dentro dela.

Sou uma pessoa feliz. Escrevo essa frase com o cuidado de quem conhece o peso dela — porque nem sempre foi verdade.

Atravessei momentos difíceis. Situações das quais eu não tinha a menor ideia de como sair. Provei coisas que não gostaria de provar de novo. E houve um tempo — digo isso com a sobriedade de quem fala do outro lado — em que desejei não estar mais aqui. Não vou me demorar nesse quarto escuro. Registro apenas que ele existiu, porque sem ele o resto desta página seria decoração.

As coisas foram se armando devagar, sem estardalhaço. Fui encontrando meu lugar no mundo — e o verbo é esse mesmo, no gerúndio, porque não foi um achado: foi um encontrando. Comecei fazendo trabalhos com os quais não me identificava, e que hoje reconheço como o que eram: degraus. Escada para chegar até onde estou, fazendo aquilo com que me identifico e de que gosto.

Nos relacionamentos, a mesma travessia. Fui muito inseguro. Convivi com pessoas de personalidades muito diferentes, e cheguei a ficar desesperançoso, achando que nunca encontraria alguém compatível comigo, que compartilhasse dos mesmos gostos, do mesmo jeito de estar no mundo. E encontrei. Não digo que encontrei a pessoa perfeita, porque o perfeito não existe. Digo que encontrei um encaixe excepcional — que talvez seja a forma que o perfeito encontrou de existir entre seres humanos.

E havia a pergunta debaixo de todas as outras. Qual o sentido da vida? Por que estou aqui? O que estou fazendo aqui? Existe alguma forma de inteligência por trás da nossa existência — um propósito?

Passei por fases. Estudei religiões, estudei filosofias, empilhei respostas provisórias. Até que, um dia, o elemento transcendental resolveu se mostrar de um modo que, para mim, ficou claro. Claríssimo. Ele existe — e pode intervir, no momento em que achar necessário.

Não peço que o leitor aceite isso. Peço apenas que aceite que eu não consigo mais fingir que não vi.

E agora?

Essa é a pergunta que quase ninguém formula, porque quase ninguém chega até ela com as mãos cheias. A dúvida existencial respondida. O amor encontrado. O trabalho com sentido. A vida, enfim, maravilhosa. O que se faz com tudo isso?

Existe uma resposta pronta, e ela é sedutora: continuar de braços abertos, olhando para o céu, vivendo a vida maravilhosa. Buscar recursos materiais cada vez maiores para uma vida cada vez mais confortável. Satisfazer os luxos, os caprichos pessoais. E seguir assim — mesmo sabendo que, ao redor, muitas pessoas estão passando exatamente pelas dificuldades que eu já passei. Problemas que eu talvez pudesse ajudar a carregar.

A pergunta parece antiga. Talvez até ingênua. Não se deixe enganar: o mundo, a sociedade, nos guia com mão firme para uma única resposta — a de que devemos caminhar para a satisfação pessoal infinita, através dos desejos, através do poder, através do acúmulo.

Aquilo que compreendi da vida — e ofereço como testemunho, não como lei — é que dificilmente seremos completamente realizados, felizes, plenos, se dedicarmos nossa energia apenas a nós mesmos.

Trazemos de fábrica uma tendência aos desejos egoístas, que nos empurra para a satisfação pessoal. Mas trazemos também, igualmente de fábrica, essa energia antiga — divina, ancestral, presente em nós desde sempre — que deseja o bem daqueles que estão ao redor. Da nossa comunidade. Da nossa sociedade. E por que não da nossa humanidade?

A sociedade empurra para o primeiro trilho. A plenitude, pelo que vi, mora no cruzamento dos dois.

A fórmula é mais fácil na teoria do que na prática. É preciso atenção — uma vigilância quase diária — para perceber o momento em que estamos desviando do caminho e deslizando de volta para os trilhos exclusivos dos caprichos pessoais. Não é uma queda dramática. É um desvio suave, confortável, que ninguém nota. Nem nós.

Mas que ninguém me leia como ingênuo.

Este mundo é, muitas vezes, injusto e hostil com os vulneráveis. Num país como o Brasil — e como tantos outros na mesma situação, muito mais numerosos do que os brasileiros gostam de enxergar —, não existe rede de proteção mínima para quem cai. Aqui, segurança financeira robusta não é luxo. É piso. Construa a sua. Proteja os seus.

O que estou dizendo é outra coisa: que o piso não é o teto. Que você só viverá a sua existência em toda a sua plenitude se fizer os dois caminhos ao mesmo tempo. Trabalhar para si mesmo, para a sua família — e também para os outros, para a sua comunidade, para a sociedade. Para deixar uma continuidade da nossa história como seres humanos.

Há um detalhe na imagem dos braços abertos que só percebi depois.

Qualquer brasileiro que abre os braços evoca, sem querer, o Cristo do Corcovado. E o Cristo do Corcovado não olha para o céu. Olha para a cidade. Os braços são os mesmos — o que muda é a direção do olhar.

Talvez seja esse o movimento inteiro que este texto tenta descrever. A rotação. Agradecer para cima e, sem fechar os braços, baixar o olhar para os lados — para onde estão as pessoas.

Naquele momento, sob o céu azul, eu podia ter apenas contemplado. Em vez disso, virei-me para dizer isto a alguém. Este texto é a minha primeira rotação do dia.

Que ele encontre você. E se encontrar você ainda no meio da travessia, naquele quarto escuro que também conheci, que sirva ao menos como notícia: existe o outro lado. Eu escrevo de lá.