Alguns debates públicos não se resolvem simplesmente ouvindo o que cada lado da trincheira tem a dizer.
Muitas vezes, eles avançam quando alguém se dispõe a olhar para o problema de outra perspectiva e perguntar se os modelos existentes estão realmente explicando tudo o que afirmam explicar.
A discussão sobre as diferenças entre homens e mulheres talvez seja um desses casos.
De um lado, existem aqueles que entendem que homens e mulheres possuem diferenças comportamentais predominantemente inatas. Segundo essa visão, determinadas tendências, preferências e comportamentos teriam origem principalmente em características biológicas presentes desde o nascimento.
Do outro lado, existem aqueles que entendem que essas diferenças surgem principalmente da cultura, da educação e do aprendizado. Segundo essa perspectiva, aquilo que chamamos de comportamento masculino ou feminino seria, em grande medida, resultado da forma como cada indivíduo é criado e das expectativas sociais às quais é exposto ao longo da vida.
Como costuma acontecer nos grandes debates humanos, ambos os lados possuem argumentos relevantes. A biologia claramente exerce influência sobre o comportamento. Da mesma forma, a cultura e o ambiente também parecem influenciar profundamente a forma como cada pessoa se desenvolve.
Mas será que essas explicações, isoladamente ou mesmo combinadas, conseguem responder a todas as perguntas?
A existência de pessoas transexuais, por exemplo, levanta questões difíceis para versões mais simplificadas desses modelos. Se tudo fosse determinado apenas pela biologia, como explicar alguém que experimenta uma identidade diferente daquela normalmente associada ao seu corpo biológico? Por outro lado, se tudo fosse resultado exclusivamente da cultura e do aprendizado, por que pessoas expostas a ambientes semelhantes desenvolvem percepções tão diferentes sobre si mesmas?
Isso não significa que os modelos biológicos ou culturais estejam errados. Significa apenas que talvez ainda existam perguntas para as quais eles não oferecem respostas completas.
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Os estudos com gêmeos univitelinos também levantam questões interessantes nessa discussão. Gêmeos univitelinos compartilham praticamente o mesmo patrimônio genético e, na maioria dos casos, crescem em ambientes muito semelhantes. Ainda assim, não é raro observar diferenças significativas de personalidade, interesses, valores e até aspectos relacionados à identidade.
É claro que isso não invalida a influência da genética nem da cultura. A própria ciência tem um nome para boa parte dessas diferenças — o chamado ambiente não compartilhado — e considera ainda o peso do acaso, das experiências individuais e de inúmeras outras variáveis.
Mas há um detalhe que costuma passar despercebido: esse “ambiente não compartilhado” é, em grande parte, o nome que damos àquilo que ainda não sabemos explicar. Reconhecemos que sobra algo — apenas não sabemos dizer exatamente o quê.
Se dois indivíduos extremamente parecidos biologicamente e expostos a contextos muito semelhantes ainda desenvolvem trajetórias internas significativamente diferentes, talvez exista uma dimensão da individualidade humana que ainda não compreendemos por completo.
Talvez a pergunta não seja se somos resultado da biologia ou da cultura. Talvez a pergunta seja por que assumimos que precisamos ser resultado apenas dessas duas coisas.
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Existe uma outra questão que raramente recebe a mesma atenção: a natureza da própria consciência. A ciência moderna realizou avanços extraordinários no estudo do cérebro. No entanto, continua existindo um debate filosófico e científico profundo sobre como experiências subjetivas surgem a partir da matéria.
Até hoje não existe consenso científico demonstrando que a consciência seja apenas um produto da atividade cerebral. Da mesma forma, também não existe comprovação científica da existência da alma ou de qualquer dimensão espiritual independente do corpo. Existe, portanto, uma lacuna legítima de conhecimento.
E é justamente dentro dessa lacuna que surge uma hipótese filosófica que considero digna de consideração. E se parte daquilo que chamamos de identidade não tiver origem apenas na biologia ou no aprendizado, mas também em uma dimensão mais profunda da consciência?
Não afirmo isso como uma verdade comprovada. Apenas observo que essa hipótese parece capaz de acomodar algumas perguntas que permanecem difíceis para explicações exclusivamente biológicas ou exclusivamente culturais.
Pesquisadores como Ian Stevenson dedicaram décadas ao estudo de fenômenos que, independentemente da interpretação adotada, desafiam explicações materialistas simples. Para algumas pessoas, esses estudos não são convincentes. Para outras, representam indícios de que a consciência talvez não se reduza completamente ao cérebro. Cada pessoa chegará às suas próprias conclusões.
A minha não é que a existência da alma esteja provada. É apenas que, diante dos dados que conheço, essa hipótese me parece uma possibilidade que merece permanecer sobre a mesa.
Talvez estejamos diante de um fenômeno complexo demais para ser explicado por uma única variável. Talvez sejamos resultado da biologia, da cultura, da experiência, da personalidade, da história individual e, quem sabe, de algo mais profundo que ainda não compreendemos.
E sei que até essa minha inclinação a manter a porta aberta é um viés meu — não um lugar acima do debate, e sim mais um dentro dele.
Mas talvez a verdadeira lucidez não esteja em declarar vitória para um dos lados da discussão, e sim em reconhecer que o mapa que possuímos ainda pode ser menor do que o território que estamos tentando compreender.
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André Rigonato Cunha