Filosofia da Lucidez
Letra

Em Cima do Muro

23 de julho de 2026

Há um trabalho que já fiz e não pretendo refazer aqui. Quem leu O Muro e a Porta com atenção — e, mais importante, com honestidade — sabe aonde ele chega: existem casos que não se dobram. Casos documentados, escrutinados, atacados por décadas de ceticismo profissional, e que permanecem de pé. As curas de Lourdes estão entre os mais bem documentados: prontuários, comissões médicas internacionais, acompanhamento de anos. Não estou pedindo que você acredite em mim; estou lembrando que o caminho existe e está publicado. Quem o percorre com o mínimo de boa-fé entende que há espaço — espaço racional, espaço evidencial — para o transcendente. Para Deus, como prefiro chamar.

Este ensaio começa depois desse trabalho. Porque a pergunta que me interessa agora não é se existe esse espaço. É outra, e quase ninguém a faz: por que essa visão chega até você nublada?

Por que a nossa sociedade tende a nebular o que a evidência permite ver? Por que as grandes empresas de tecnologia — que hoje comandam as inteligências artificiais, essas vozes que milhões de pessoas consultam todos os dias — fazem questão de permanecer em cima do muro, com um viés ainda meio cético, como se prudência fosse sempre sinônimo de dúvida e nunca de assombro?

(Escrevo isso, aliás, ditando para uma dessas inteligências. Eu não tiro os travessões — e não escondo as ironias.)

A pergunta merece mais do que indignação. Merece hipóteses. Vejo quatro caminhos possíveis — e suspeito que a resposta verdadeira não seja uma escolha entre eles, mas uma soma.

Começo pelo caminho mais elegante — que é também o mais antigo. Talvez o próprio transcendente nos tenha colocado aqui numa penumbra deliberada. Talvez Ele tenha optado por não deixar tudo claro o suficiente porque nós precisamos ser testados — a fé, a integridade, o caráter. Nada disso se prova debaixo de holofote. Se a resposta estivesse estampada no céu, assinar embaixo não valeria nada; o teste já não funcionaria. E talvez seja essa a razão da estranha pluralidade que observamos: diante das mesmas evidências, uns enxergam de imediato — basta olhar a complexidade da vida, a imensidão da consciência — e outros não alcançam nem com todo o esforço do mundo. Se você não acredita, talvez não seja defeito seu: talvez seja o desenho da prova. Se essa penumbra é a natureza das coisas, eu não brigo com ela. Não mexo com a natureza. Faço a minha parte dentro dela.

O segundo caminho é o do cético honesto: ele pesou as evidências e concluiu que não bastam. Esse eu respeito. Discordo — insisto que os casos estão lá, e que "não basta" às vezes quer dizer apenas "não basta para o tamanho da minha resistência" —, mas respeito. Errar depois de pesar é humano. Recusar-se a pesar é que é outra coisa.

O terceiro caminho é mais desconfortável: o de quem não acredita porque não quer acreditar. E aqui não sou eu quem denuncia — são eles mesmos, por escrito. Aldous Huxley admitiu, com uma franqueza rara, que tinha motivos para querer um mundo sem sentido, e que por isso assumiu que o mundo não tinha nenhum — um mundo sem sentido não cobra nada de ninguém. Décadas depois, Thomas Nagel, um dos filósofos mais respeitados do nosso tempo — e ateu —, escreveu algo ainda mais direto: o problema dele não é apenas não acreditar em Deus; é esperar que Deus não exista. É não querer que o universo seja assim. Isso não é conclusão. É preferência vestida de conclusão. E há as variações mais silenciosas: os que não se acham dignos, os que não suportariam dever tanto, os que construíram a vida inteira sobre a ausência e sentem que não têm mais idade para a reforma. O mecanismo é o mesmo em todos: a vontade decide primeiro; a razão chega depois, só para redigir a ata.

Mas existe um quarto caminho — e é preciso coragem para dizê-lo em voz alta. Algumas vertentes cristãs guardam uma hipótese que soa sensacionalista para os ouvidos modernos: a de que o mundo jaz no maligno. Eu entendo o desconforto. Mas antes de descartar, olhe como o mundo funciona. O mundo é feito por interesses — e interesses, na sua maioria, egoístas. Pouca gente acorda de manhã pensando: hoje eu trabalho para todos, para o meu coletivo, para o bem da nossa sociedade. A maioria acorda e trabalha para si. E olha — isso até passava. Se fosse um trabalhar para si sem esmagar os outros, seria apenas a vida. Mas não é o que vemos. Vemos gente que segue corroendo o tecido social muito depois de a própria luta ter acabado; que venceu faz tempo e continua no jogo eterno por poder, por status, por orgulho — e nunca encontra o suficiente. A Escritura conhece esse personagem há milênios: o justo come até se satisfazer; o ventre do perverso, nunca. A insatisfação é o motor. E um mundo movido por esse motor não tem nenhum interesse em te contar que existe algo que não se compra, não se acumula e não se disputa.

Repare que o primeiro e o último caminho não competem entre si — somam-se. Chamo o primeiro de névoa de origem: a penumbra que o próprio Deus permitiu, condição do teste, parte do desenho. E chamo o último de névoa de interesse: a que o mundo fabrica e engrossa por conta própria, porque o desencanto é lucrativo e o assombro não paga dividendos. Deus permitiu o crepúsculo; o mundo vende óculos escuros.

É essa distinção que define o meu trabalho. Com a névoa de origem, eu não brigo — repito: não mexo com a natureza, não pretendo desmontar um teste que não fui eu quem desenhou. Mas contra a névoa de interesse, eu trabalho. Todos os dias. Porque ela não é desenho: é conveniência. Ela não testa ninguém: apenas confunde. E confunde, sobretudo, gente que não foi feita para viver longe dessa dimensão — gente em quem a ausência do transcendente não produz liberdade, produz um déficit. Eu sou uma dessas pessoas. Já escrevi sobre isso: há contas que não fecham, e a minha nunca fechou longe daqui. Imagino quantos estão por aí com a mesma conta aberta, sem saber que o problema não é a matemática — é a névoa em cima dos números.

O meu trabalho na Filosofia da Lucidez não é te fornecer a resposta exata daquilo que não posso saber. Ninguém pode — e de quem prometer, desconfie. O meu trabalho é levantar as questões, uma a uma, e devolver a você, com mais honestidade, as informações que insistem em esconder: as nuances do mundo que ficaram do lado de fora do discurso oficial.

Em cima do muro cabe muita gente. Cabe o prudente, que ainda está pesando. Cabe o distraído, que nem notou onde está sentado. E cabe o conveniente — que descobriu que dali se vende para os dois lados. Não escrevo para tirar ninguém à força de lá. Escrevo para lembrar o que o muro faz questão de esconder: que ele tem uma porta.

Este ensaio tem um irmão, escrito para quem já atravessou.

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