Letra

14 de julho de 2026

Nada Pessoal

Sobre robôs à porta, sobre parasitas e sobre o amor ao que construímos

Hoje acordei e, antes do café, fui ver as visitas do meu site.

Ele tem poucos dias de vida. Eu esperava meia dúzia de leitores — um amigo, um curioso, talvez alguém que chegou por acaso e resolveu ficar.

Encontrei outra coisa.

Registros estranhos. Endereços distantes tentando executar comandos, instalar programas que eu nunca pedi, procurar portas dos fundos que nem existem. Robôs. Rondando a casa nova de madrugada, girando cada maçaneta, testando cada janela.

Minha primeira reação foi quase de ofensa: já? O site mal nasceu. Quase ninguém sabe que ele existe. E eles já sabiam.

Aí percebi meu engano. Eles não me encontraram — encontraram um endereço. Esses programas varrem a internet o dia inteiro, batendo em todas as portas que aparecem. Ninguém do outro lado estava pensando em mim ou nos meus textos. Não fui escolhido; fui varrido. O carrapato não sabe o nome do cachorro.

A natureza explica bem esse comportamento. A vida, lá no básico, segue uma regra simples: conseguir o máximo gastando o mínimo. A planta não agradece ao sol. A raiz não pergunta de quem é o solo. O parasita não odeia ninguém — só achou mais barato viver do corpo que outro construiu do que construir o próprio. Não há maldade nisso. Não há escolha. É só a vida funcionando como sempre funcionou.

Os robôs seguem a mesma regra. Invadir um site pronto sai muito mais barato do que criar mil sites do zero. Eles não querem me destruir. Querem apenas o que eu tenho. Não é nada pessoal — é objetivo.

Mas a comparação com a natureza para por aqui. Porque robô não nasce: é feito. Atrás de cada um deles existe uma pessoa. Alguém que acordou um dia, sentou diante de uma tela e decidiu que era mais fácil colher onde não plantou. E essa pessoa tem o que o carrapato não tem: escolha. Ela sabia de quem estava tirando? Não — e escolheu não saber.

Gosto de imaginar o mundo como um corpo, e cada um de nós como uma célula. A maioria trabalha: constrói, transporta, defende, cuida. Mas algumas células olham para tudo isso e concluem que parasitar é mais fácil. E o padrão se repete em todos os tamanhos: no colega que fica com o crédito do trabalho alheio, no negócio que copia em vez de criar, no robô que ronda a casa dos outros às três da manhã.

E tem uma ironia nessa história que levei um tempo para enxergar.

Esses robôs tentam arrombar um site que não vende nada. Não há caixa aqui, não há segredo, não há muro. Tudo o que existe do lado de dentro — os ensaios, as ideias, as horas — é dado de graça a quem chegar. A porta da frente está escancarada. Mas o robô não enxerga portas abertas: ele foi feito para procurar fechaduras. Ele nunca vai ler uma linha do que tenta invadir.

Fico pensando nisso. Toda essa eficiência, e nenhum sentido.

E então sobra a pergunta que esfriou junto com o café: o que nos separa desses seres — vivos ou programados — que só buscam o caminho mais curto?

A resposta tem nome antigo: consciência. É ela que nos permite olhar para o atalho e dizer: não — esse caminho passa por cima de alguém. Venha ela de onde vier — cada leitor escolhe o nome que prefere dar —, o fato é que carregamos algo que o carrapato não carrega: a capacidade de escolher o caminho mais caro. De propósito. Porque existem valores que custam caro e valem o que custam.

Um cuidado: não estou dizendo que todo caminho curto é desonesto. Poupar esforço tem sua sabedoria — a boa ferramenta, o trabalho inteligente. Eficiência não é pecado. A linha não separa o fácil do difícil. Separa o que eu construo do que eu tomo.

E existe uma última pobreza no parasita — talvez a maior. Mesmo quando o golpe dá certo, ele fica sem a única riqueza que importa de verdade: a história. Quem invade a casa dos outros mora numa casa sem memória. Não tem ali o dia do erro corrigido, nem a lembrança do tempo em que tudo era só um terreno e uma teimosia.

Eu olho para este site — pequeno, novo, quase sem visitas de gente de verdade — e sei o que cada página me custou e me deu. É pouco? Talvez. Mas é meu de um jeito que nenhum robô pode tomar. Porque o que tenho de mais valioso aqui não está guardado em servidor nenhum.

E talvez essa seja a lição que os robôs me entregaram sem querer: não basta ter consciência — é preciso valorizá-la. Nós celebramos resultados: o prêmio, o número, a chegada. Quase nunca perguntamos pelo caminho. Ninguém aplaude o atalho recusado, a porta que alguém decidiu não forçar. E, no entanto, é dessa matéria invisível que se faz tudo o que presta.

Valorizar a consciência — a nossa e a de quem está ao redor — é reconhecer o construtor antes de admirar o prédio. É dizer em voz alta que a integridade do outro foi vista. Porque integridade que ninguém vê é planta que ninguém rega: resiste, mas resiste sozinha.

E é aqui que aparece a palavra que dá sentido a tudo: civilização.

A selva é o estado natural das coisas. Ela não exige esforço nem pede acordo — a lei do caminho mais curto governa tudo sozinha. Civilização é o contrário. É um acordo invisível, renovado todos os dias por milhões de escolhas que não saem no jornal: cada pessoa que construiu em vez de tomar, que devolveu a carteira que encontrou, que fez direito quando ninguém estava olhando.

Cada uma dessas escolhas é um tijolo. Cada escolha parasita é a selva crescendo de volta pelas frestas. E os robôs que rondam a minha casa não são o futuro chegando — são a coisa mais antiga do mundo. São a selva, que aprendeu a usar computadores.

Esta noite, enquanto eu durmo, eles vão continuar. Vão girar maçanetas que não existem, bater nas portas de uma casa que — ironia final — está aberta para qualquer um que venha em paz.

Não vou perder o sono. Eles não querem me destruir; querem apenas o que eu tenho, e nem sabem o que é.

Para eles, não é nada pessoal.

Para mim, é tudo pessoal. É isso que me torna humano. E é isso — multiplicado por todos os que hoje escolheram construir — que nos torna uma civilização, e não uma selva.