Comprei um iPhone novo em Milão — a primeira vez na vida em que comprei um direto na loja. Guardei no bolso para não ser roubado na rua e, poucos minutos depois, ele caiu e amassou. Nenhum técnico soube me dizer com segurança se a vedação contra a água sobreviveu, e isso, para mim, não é luxo: é requisito. A precaução que me protegeu do ladrão foi a mesma que quebrou o telefone.
Quem acompanha os meus textos sabe que existe um dia, na minha vida, em que acredito que Deus interagiu comigo. Sei também o que isso vale como argumento: nada. Mas há um lado do problema de que quase ninguém fala — se a ação significa alguma coisa, a ausência de ação também significa. E a ausência é incomparavelmente mais frequente. Nenhuma providência cobria o meu bolso naquela rua, e nem deveria: um Deus que interrompe a ordem do mundo para amparar a queda de um celular novo seria um gerente de conveniências.
Sobra a única lição que o episódio realmente autoriza, e ela é prática. Não existe proteção invisível embutida no preço do que você compra. Entre o seu aparelho e o chão existe apenas a sua atenção — e a sua atenção é pior do que você imagina.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Vi a cor antes de ver o telefone. Um azul noturno, uma das cores de que mais gosto na vida, e soube ali que em algum momento aquele aparelho seria meu. Só não imaginava que fosse tão cedo. A memória acabou no meio das gravações, a viagem para fora do país chegou junto, e foi assim que aconteceu uma primeira vez que eu nem sabia estar pendente: comprar um iPhone pessoalmente, na loja. Sempre comprei de outro jeito — seminovo, de conhecido, do amigo que foi aos Estados Unidos e trouxe na mala.
Saí com a sacola na mão e me veio um pensamento que hoje tem uma ironia quase cômica. Um iPhone lacrado é o sonho de qualquer ladrão: abre, registra na própria conta e pronto. Achei aquilo imprudente demais para uma rua estrangeira, tirei o telefone da sacola e guardei no bolso. Sem capa, é claro. Poucos minutos depois, entrando numa loja em Milão, ele caiu e amassou. Até hoje nenhum técnico conseguiu me dizer se aquilo comprometeu ou não a vedação contra a água — que, para quem derruba, molha e bate no aparelho todo dia, não é luxo, é requisito. Comprei exatamente a resistência que perdi antes de dobrar a esquina.
✦
A pergunta que aparece nessas horas é sempre a mesma, e é uma pergunta religiosa disfarçada de pergunta prática: eu mereci? Fui atrás com honestidade. Na juventude já comprei telefone que não podia comprar, pela moda, pelo que aquilo dizia de mim — conheço o gesto por dentro. Mas não era o caso. A câmera tinha função, o trabalho existia, o preço cabia no orçamento. Procurei a vaidade no episódio e não encontrei. Era só azar, um azar limpo, sem moral embutida.
E o mais irônico: o azar veio exatamente da precaução. A decisão que me protegeu do ladrão foi a decisão que quebrou o telefone. O ladrão que não veio é invisível; o amassado está aqui, na minha mão, todos os dias. Só sabemos contar os males que chegam.
✦
Quem acompanha os meus textos sabe que existe um dia, na minha vida, em que acredito que Deus interagiu comigo. Sei o que isso vale como argumento: nada. Por isso, quando escrevo sobre o assunto, uso sempre casos públicos, com muito mais documentação do que a que eu tenho. A minha experiência não é prova para ninguém, e eu não a ofereço como prova.
Mas há um lado do problema de que quase ninguém fala. Se a ação significa alguma coisa, a ausência de ação também significa. E a ausência é incomparavelmente mais frequente: Deus não age na esmagadora maioria das vezes, e essa maioria é dado, não é silêncio vazio. Não concluo daí que Ele não possa agir. O que se pode ler ali, sem nenhum salto, é uma questão de proporção: o que quer que aconteça naqueles episódios raros não tem relação nenhuma com o meu aparelho. Nenhuma providência cobria o meu bolso naquela rua de Milão. Nunca esteve em questão.
E nem deveria estar. Um Deus que interrompe a ordem do mundo para amparar a queda de um celular novo seria um gerente de conveniências — e a gente passaria a pedir a ele coisas cada vez menores, até não pedir mais nada que prestasse.
✦
Fica então a única lição que o episódio realmente autoriza, e ela é prática. O que você compra caro é frágil, e é frágil exatamente na medida em que é caro. Não existe proteção invisível acompanhando a sua compra, não existe reserva de sorte embutida no preço. A única coisa entre o seu aparelho e o chão é a sua atenção — e a sua atenção é pior do que você imagina. A minha, pelo menos, é.
Deus provavelmente não vai proteger o seu iPhone novo. Por que deveria?
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Vi a cor antes de ver o telefone. Um azul noturno, sem concessão, uma das cores de que mais gosto na vida. Olhei aquilo e soube, com a calma de quem não tem pressa, que em algum momento aquele aparelho seria meu. Só não imaginava que fosse tão cedo.
A gravação dos vídeos decidiu por mim. A memória acabou, a necessidade apareceu e coincidiu com a viagem para fora do país com a minha esposa. Quando as coisas se encaixam assim, não sobra muito a deliberar. Foi assim que aconteceu uma primeira vez que eu nem sabia estar pendente: comprar um iPhone pessoalmente, na loja da Apple. Sempre comprei de outro jeito — seminovo, de conhecido, de loja, do amigo que foi aos Estados Unidos e trouxe na mala. No Brasil o caminho oficial é o caminho caro, e a gente aprende cedo a procurar a alternativa. Mas ali estava eu, pela primeira vez, na loja, com a cor exata.
✦
Saí com a sacola na mão e me veio um pensamento que hoje tem uma ironia quase cômica.
Um iPhone lacrado é o sonho de qualquer ladrão. Não precisa desmanchar, não precisa vender peça, não precisa de comprador especializado. Abre, registra na própria conta e pronto — o aparelho inteiro é dele. Achei aquilo imprudente demais para uma rua estrangeira. Tirei o telefone da sacola e guardei no bolso.
Sem capa, é claro. A capa viria depois.
Poucos minutos depois, entrando numa loja em Milão, ele caiu. Bateu num ponto específico e amassou. Até hoje nenhum técnico conseguiu me dizer com segurança se aquilo comprometeu ou não a vedação contra a água.
Quem me conhece sabe que isso não é detalhe. Um celular à prova d’água, para mim, não é luxo — é requisito. Eu derrubo, molho, bato. Entro no banheiro com ele, esqueço, deixo cair. Mesmo quando quero cuidar, não consigo cuidar tanto quanto deveria. O meu aparelho precisa estar preparado para as adversidades porque elas vão chegar, todas, e chegam todo dia. Comprei exatamente a resistência que perdi antes de dobrar a esquina.
✦
Levei alguns dias examinando aquilo, e não vou fingir que não levei. A pergunta que aparece nessas horas é sempre a mesma, e é uma pergunta religiosa disfarçada de pergunta prática: eu mereci?
Fui atrás com honestidade. Na juventude, sim, já comprei telefone que não podia comprar, pela moda, pelo que aquilo dizia de mim numa roda de conhecidos. Conheço aquele gesto por dentro, e é por isso que sei reconhecê-lo. Mas não era o caso. A câmera tinha função, a memória tinha função, o trabalho existia, a viagem existia, o preço — caro, sim — cabia no orçamento sem tirar nada de ninguém. Procurei a vaidade no episódio e não encontrei. Era só azar. Um azar limpo, sem moral embutida.
E o mais irônico: o azar veio exatamente da precaução. A decisão que me protegeu do ladrão foi a decisão que quebrou o telefone. O ladrão que não veio é invisível; o amassado está aqui, na minha mão, todos os dias. Só sabemos contar os males que chegam.
✦
Quem acompanha os meus textos sabe que existe um dia, na minha vida, em que acredito que Deus interagiu comigo. Sei também o que isso vale como argumento: nada. Quem acredita, acredita; quem não acredita, não vai acreditar por minha causa. Por isso, quando escrevo sobre o assunto, uso sempre casos públicos, com muito mais documentação do que a que eu tenho — Fátima, Lourdes, os episódios que examino nos livros. A minha experiência não é prova para ninguém, e eu não a ofereço como prova.
Mas há um lado do problema de que quase ninguém fala. Se a ação significa alguma coisa, a ausência de ação também significa alguma coisa. E a ausência é incomparavelmente mais frequente. Deus não age na esmagadora maioria das vezes, e essa maioria é dado — não é silêncio vazio.
Não concluo daí que Ele não possa agir. Os casos que examino nos livros apontam para o contrário, e é justamente por isso que a conclusão me interessa. O que se pode ler ali, sem nenhum salto, é uma questão de proporção: o que quer que aconteça naqueles episódios raros não tem relação nenhuma com o meu aparelho. Nenhuma providência cobria o meu bolso naquela rua de Milão. Nunca esteve em questão.
E nem deveria estar. Se algum dia eu conseguisse imaginar um Deus que interrompe a ordem do mundo para amparar a queda de um celular novo, seria hora de desconfiar profundamente daquilo que eu chamo de Deus. Um Deus assim seria um gerente de conveniências — e a gente passaria a pedir a ele coisas cada vez menores, até não pedir mais nada que prestasse.
✦
Fica então a única lição que o episódio realmente autoriza, e ela é prática.
O que você compra caro é frágil, e é frágil exatamente na medida em que é caro. Um produto de linha perde boa parte das suas qualidades num descuido de um segundo — não perde só valor de revenda, perde a função pela qual você pagou. Quem não tem consciência da fragilidade do que carrega está carregando dinheiro sem saber.
Não existe proteção invisível acompanhando a sua compra. Não existe reserva de sorte embutida no preço. A única coisa entre o seu aparelho e o chão é a sua atenção — e a sua atenção é pior do que você imagina. A minha, pelo menos, é.
Deus provavelmente não vai proteger o seu iPhone novo.