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Letra

Crônica · Julho de 2026

O Atraso Pontual

Domingo era dia de festa: aniversário na chácara de um primo, a uma boa hora de estrada. Acordei cedo, fiz meus exercícios e avisei minha esposa: "se arruma — vamos tentar não chegar atrasados dessa vez." Quem nos conhece sabe que essa frase, aqui em casa, é menos um plano e mais uma oração. E das raramente atendidas.

E eis que, no instante exato em que estacionei na garagem e abri a porta de casa, a campainha tocou. Minha esposa olhou na câmera: "André, são as meninas da igreja." As missionárias. A cada seis meses, rostos novos batem à minha porta — desta vez, uma delas recém-chegada dos Estados Unidos. "Hoje não temos tempo", eu disse. Mas a campainha havia soado no minuto em que eu entrava; devem ter me visto chegar com o carro. Alguma coisa em mim não soube ser indiferente. Fui lá. Só um minuto.

O minuto virou uma hora.

Elas começaram a me apresentar a igreja delas — que eu, aliás, já conhecia. Estive lá certa vez: fiz um curso de um dia, assisti ao culto, admirei sinceramente a organização e senti algo bom pairando por ali, uma paz difícil de nomear. Cheguei a ser convidado para reuniões na casa de um dos líderes. Foi numa dessas que ouvi a frase que nunca coube em mim: a nossa é a igreja certa. Guardei o incômodo sem alarde — mas guardei.

"E você? Qual é o seu trabalho para Jesus?"

A pergunta veio delas, direta, dessas que só a juventude faz sem cerimônia. Respondi que não pertenço a denominação nenhuma, mas que acabei de escrever um livro. Que o meu trabalho — se posso chamá-lo assim — é procurar as pessoas que se machucaram com alguma instituição e que, por causa dessa ferida, desistiram não apenas da instituição, mas da própria possibilidade do transcendente. Tento deixá-las permeáveis de novo. Falei do clima cético do nosso tempo, dos pensadores que apostaram que a ciência um dia responderia tudo, e de como procuro mostrar, pela racionalidade e pela análise honesta das evidências, que é razoável crer que existe algo em vez de nada. Não devolver ninguém a esta ou àquela igreja: devolver as pessoas à porta.

E, já que estávamos em confiança, dei a minha beliscadinha de leve. Contei que minhas pesquisas sobre milagres e fatos extraordinários — casos que dificilmente encontrarão um dia explicação natural — atravessam tradições: a Igreja Católica, a Igreja Copta no Egito, uma batista e uma pentecostal aqui no Brasil. Nas duas últimas, aliás, vivi o que conto no fim do meu livro: uma mulher que nunca me viu na vida falou de uma decisão que eu e minha esposa precisávamos tomar naquele exato momento; uma semana depois, em outra igreja, um pastor que não sabia nem o meu nome reafirmou a mesma coisa. Tomei a decisão. Deu certo. Se Deus se manifesta em endereços tão diferentes, pensei em voz alta, talvez nenhuma placa de fachada detenha a exclusividade. Talvez Ele fale a língua de cada um — comigo, fala português. Elas riram; acho que entenderam que a beliscada era carinho, não combate.

Perguntei então o que elas mais amavam na igreja, e se os pais já eram da mesma fé. Uma delas me deu uma resposta que valeu a manhã: o pai, judeu secular, sem religião nenhuma; a mãe, criada na fé. Foi crescendo dentro desse contraste que ela escolheu o próprio caminho — viu, ao longo de uma vida inteira, como a fé sustentou a mãe nos momentos difíceis, e o que a ausência dela custou ao pai. Ela não creu por argumento; creu por observação. William James chamaria isso de conhecer a árvore pelos frutos. Ela chamou de infância.

Foi quando a campainha do portão tocou de novo. Era minha esposa: "André, faz quase uma hora que você está aí!"

Saímos correndo, cabisbaixos, meio envergonhados. Abastecer, resolver, rodar. "Falhamos de novo", dissemos na estrada. Chegamos à chácara no meio da tarde, prontos para o constrangimento de sempre — e, no momento exato em que atravessamos a porteira, antes de cumprimentarmos quem quer que fosse, todos se reuniram, alguém puxou o discurso e começou o parabéns.

Um minuto a mais em casa e eu teria perdido o auge da festa. Meu primo veio rindo: "vai lá, pega que está acabando." Na panela, sozinhos, os dois últimos cachorros-quentes. Como se esperassem por nós.

Fiquei quieto, mastigando e pensando. Porque não era a primeira vez: no aniversário do ano passado, a mesma cena — cheguei exatamente na hora do parabéns. E então me dei conta da ironia que quase me escapou. O atraso não foi um obstáculo que o dia superou; o atraso foi a causa da pontualidade. Passei uma hora à porta de casa explicando a duas missionárias por que dedico a vida a reabrir nas pessoas a porta do transcendente — e foi exatamente essa hora que me fez atravessar a porteira no único minuto que importava. A interrupção e a pontualidade foram o mesmo evento.

Lembrei também de outra época, há exatos vinte anos, em que era o contrário: tudo dava errado justamente nos detalhes. Em meados de 2006, perdi pelo segundo ano consecutivo o prazo de inscrição do concurso de poesia da faculdade, que eu sonhava disputar. Cheguei um dia depois, ou algumas horas — a memória guardou a perda, não o tamanho do atraso. Pela mesma época, a primeira reprovação da minha vida, logo no último ano do curso: seis vírgula noventa e cinco, quando a média para passar era sete. Cinco centésimos. Naquele tempo, os minutos e os centésimos jogavam contra: quando era para chegar, algo me atrasava; quando era para dar certo, um pormenor desmanchava. A vida nem sempre foi como é hoje — o que me lembra que ela também não é, hoje, como sempre foi. E percebo que faço com a minha própria biografia o mesmo que aquela menina fez com os pais: leio o contraste entre duas estações e extraio dele uma direção.

Sincronicidade, como diria Jung? Providência? Acaso que a memória seleciona e enfeita? Ninguém pode honestamente saber — e desconfio de quem afirma saber. Não me acho especial; coisas assim acontecem com todos. Mas aprendi a distinguir duas palavras que costumam ser confundidas: prova e sinal. Prova serve para convencer os outros; sinal serve para encorajar quem caminha. Não ofereço este domingo como prova de coisa alguma. Guardo-o como sinal — desses que não demonstram doutrina nenhuma, mas sussurram, a quem rema, que talvez o remo aponte na direção certa.

E se apontar? Então vale a pena continuar. Imagino uma única pessoa que leia um texto meu e reencontre a possibilidade do transcendente: ela viverá mais leve, mais confiante, com algum propósito costurando os dias. E quem vive assim não se beneficia sozinho — beneficia o cônjuge, os filhos, a maneira de educar, a maneira de tratar quem está ao redor. É uma corrente. Sei também que não basta abrir a porta: entregar fé a alguém sem lhe dar ferramentas para atravessá-la — sem critérios para separar as interpretações que fazem sentido daquelas que não fazem — é ajudar pela metade. Por isso o trabalho tem duas mãos: abrir à transcendência quem o ceticismo excessivo fechou, e proteger do dogmatismo rígido quem a fé abriu.

Não sei se é isso. Não tenho certeza — e que esta frase fique registrada, porque ela é metade do método. Mas sigo fazendo o meu trabalho, por poucos que sejam os que veem. Os sinais, ao menos, dizem que remo em alguma direção certa. E no domingo, por um instante, a direção certa tinha cheiro de cachorro-quente.

André Rigonato Cunha

Este texto é gratuito e faz parte da Filosofia da Lucidez.
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