Uma manhã na Croácia, um passeio de barco planejado nos mínimos detalhes por quem cuida de todo mundo — e um imprevisto que desfaz o plano dez minutos antes da hora marcada. Este ensaio não é sobre o contratempo, mas sobre a decisão que se toma diante dele, antes de saber como o dia vai terminar: procurar culpados ou procurar motivos. No caminho, uma igreja que levou duzentos anos para ficar pronta explica algo sobre pressa que ninguém a bordo tinha considerado — e vem à superfície uma distinção quase sempre confundida: a diferença entre acreditar que tudo acontece por um motivo e escolher uma leitura sabendo que o motivo é inacessível.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Acordamos, eu e Letícia, e a mesa já estava posta.
Na véspera, a Cami tinha resolvido cada detalhe: o café, o horário, o roteiro pelas ilhas e o barco — não um barco qualquer, o mais bonito que o aplicativo oferecia. Nós a chamamos de Mami, apelido inventado nesta viagem mesmo, ao ver o jeito com que ela cuidava de todo mundo. De Cami para Mami vai uma letra de distância. Foi só isso que precisou mudar.
Chegamos dez minutos antes do horário. O rapaz da agência nos disse que o barco não estava mais disponível. Transferir para o dia seguinte não servia. Havia uma alternativa: um barco livre, do mesmo tamanho, mesmo espaço, mesmo conforto. Só que mais feio.
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Houve ali um instante de silêncio. Não era sobre o barco: era sobre uma expectativa construída com esmero se desfazendo por um motivo que não pertencia a ninguém daquela mesa. Quem planeja tudo sente que a falha é sua. Mas o barco nunca esteve nas mãos dela. Nunca esteve nas mãos de ninguém.
Então dissemos, mais ou menos assim: vamos achar os motivos para acreditar que foi melhor. A frase não foi minha sozinha — veio da irmã mais nova, justamente a irmã de quem a Cami cuida. O apelido materno, que a gente mesmo tinha acabado de distribuir, pertencia a uma; a atitude materna, naquela manhã, veio da outra.
E veio antes de qualquer evidência. Ainda não tínhamos subido no barco.
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Dessa vez não foi difícil encontrar os motivos. A comandante croata sorria o tempo todo e, ao passar por uma igreja, explicou que a obra levou duzentos anos — o que, segundo ela, diz bastante sobre o temperamento local: não existe nada que se possa fazer hoje que não possa ser feito amanhã. E eu ali, ao lado da Mami, que tinha cronometrado o café da manhã.
Havia também um casal de coreanos passados dos setenta. Pareceram rudes ao começar a nos fotografar sem pedir licença. Fotografavam todo mundo a bordo, e no fim entregaram as imagens de graça. Ficamos com as únicas fotos em que aparecemos todos juntos.
Duas leituras erradas no mesmo dia. O barco feio e o casal rude.
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Não sei se aquele barco era melhor. Não tenho dois mundos para comparar; tenho um só, e ele já aconteceu. O que sei é que a alternativa era pior: passar o dia procurando culpados e transformar um contratempo de trinta minutos em um dia inteiro estragado — e estragado por decisão própria.
Por isso não chamo aquilo de convicção. Convicção seria afirmar que havia um plano, que aquilo estava escrito. Não afirmo nada disso. É uma decisão: o fato já está consumado, a interpretação continua em aberto, e a interpretação é a única parte que ainda me pertence.
A única coisa que continuava indefinida naquela manhã não era o barco. Era o que faríamos com ele dentro da cabeça.
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Acordamos, eu e Letícia, e a mesa já estava posta.
Na véspera, a Cami tinha resolvido cada detalhe do dia seguinte: o que comeríamos no café da manhã, a que horas sairíamos, o roteiro pelas ilhas e, principalmente, o barco. Não um barco qualquer — o mais bonito que o aplicativo oferecia.
Nós a chamamos de Mami. O apelido nasceu nesta viagem mesmo, inventado no meio do caminho, ao ver o jeito com que ela cuidava de todo mundo — de nós e da própria irmã mais nova. De Cami para Mami vai uma letra de distância. Foi só isso que precisou mudar.
Estava tudo sob controle, tudo planejado da melhor maneira possível. E planejado por afeto, que é justamente o que torna esse tipo de cuidado tão delicado.
Chegamos dez minutos antes do horário.
Falamos com o rapaz da agência com a tranquilidade de quem já sabe o que vem a seguir, e ele nos disse que o barco não estava mais disponível.
Poderíamos transferir para o dia seguinte.
O dia seguinte não servia. Já havia outro passeio marcado. Precisava ser hoje.
O rapaz pensou, consultou uma pessoa, consultou outra, sumiu, voltou. E voltou com uma alternativa: havia um barco livre, do mesmo tamanho, com o mesmo espaço, o mesmo conforto. Só que mais feio.
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Houve ali um instante de silêncio que eu reconheço bem, porque já o vivi de dentro muitas vezes.
Não era sobre o barco. Era sobre uma expectativa construída com esmero se desfazendo por um motivo que não pertencia a ninguém daquela mesa. Quem planeja tudo carrega uma responsabilidade a mais: quando alguma coisa escapa, sente que escapou das suas mãos. Mas nada tinha escapado das mãos dela. O barco nunca esteve nas mãos dela. Nunca esteve nas mãos de ninguém.
Lembrei das aulas sobre impermanência, de uma época em que estudei budismo com alguma seriedade. Nem tudo é como a gente quer, e o desconforto raramente vem do fato em si — vem da distância entre o fato e a versão que a gente já tinha montado na cabeça. Enquanto acreditamos que estamos no controle, cada desvio parece uma falha. Quando se admite que ninguém sabe exatamente como as coisas deveriam ser, o desvio deixa de ser falha e passa a ser apenas o que aconteceu.
Então dissemos, mais ou menos com essas palavras: vamos achar os motivos para acreditar que foi melhor assim.
Digo dissemos porque a frase não foi minha sozinha. Quem estava ao meu lado naquele instante era a irmã mais nova da Cami — justamente a irmã de quem a Cami cuida —, e foi dela que veio o tom. Achei curioso na hora e continuo achando: o apelido materno, que a gente mesmo tinha acabado de distribuir, pertencia a uma — mas a atitude materna, naquela manhã, veio da outra. Veio de quem costuma ser cuidada. Talvez o cuidado funcione assim mesmo, sem ficar parado em quem tem o título — quando quem sustenta todo mundo precisa ser sustentada, alguém se levanta.
Reparem que a frase veio antes de qualquer evidência. Ainda não tínhamos subido no barco. Não sabíamos nada sobre o dia que estava por vir. A decisão foi tomada no escuro, que é o único lugar onde esse tipo de decisão pode ser tomada.
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Dessa vez não foi difícil encontrar os motivos.
A comandante era croata e sorria o tempo todo. Contava a história de cada ilha com um humor seco, e em algum momento apontou para uma igreja e explicou que a construção tinha levado duzentos anos. Disse que aquilo revelava bastante sobre o temperamento local: não existe nada que se possa fazer hoje que não possa ser feito amanhã.
E lá estava eu, ao lado da Mami, que tinha cronometrado o café da manhã, ouvindo uma croata explicar, rindo, que a pressa é um problema de quem chega.
Havia também um casal de coreanos, os dois passados dos setenta. No início pareceram um pouco rudes: levantaram o celular e começaram a fotografar a gente sem pedir licença. Depois entendemos o que estava acontecendo. Fotografavam todo mundo a bordo, e no fim do passeio entregaram as imagens de graça, família por família. Ficamos com as únicas fotos em que aparecemos todos juntos.
Duas leituras erradas no mesmo dia. O barco feio e o casal rude.
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Agora a parte honesta, que é a parte que interessa.
Eu não sei se aquele barco era melhor. Não tenho como saber. Talvez no outro houvesse outra comandante igualmente engraçada, outro casal disposto a fotografar estranhos, outra igreja de duzentos anos passando pela janela. Não tenho dois mundos para comparar. Tenho um só, e ele já aconteceu.
O que eu sei é que a alternativa era pior. A alternativa era passar o dia brigando com a realidade: procurando culpados, decidindo quem estava certo e quem estava errado, cobrando de alguém uma previsão que ninguém tinha como fazer. A alternativa era transformar um contratempo de trinta minutos em um dia inteiro estragado, e ainda por cima estragado por decisão própria.
Por isso faço questão de não chamar aquilo de convicção. Não é. É uma decisão.
Convicção seria afirmar que o universo trocou o barco por nós, que havia um plano, que aquilo tudo estava escrito. Não afirmo nada disso. Não sei. Ninguém sabe. Decisão é outra coisa: é reconhecer que o fato já está consumado, que a interpretação continua em aberto, e que a interpretação é a única parte que ainda me pertence.
Aceitar, nesse sentido, não é dizer que tudo acontece por um motivo. É admitir que eu não tenho acesso ao motivo — nem para afirmar, nem para negar — e escolher, dentro dessa ignorância, a leitura que me deixa em pé.
A única coisa que continuava indefinida naquela manhã não era o barco.