Filosofia da Lucidez
Letra

O Bigode e a Fronteira

Sexta-feira de chuva, sem nada para fazer. O YouTube me oferecia pela quinta vez o mesmo vídeo com outra capa, e eu, cansado da repetição, fui parar num assunto que não tinha relação nenhuma com nada: por que alguns países enriqueceram e outros não.

Uma coisa puxou a outra e acabei cruzando o desenvolvimento dos países com o capital humano deles, a capacidade intelectual do cidadão comum. Esperava encontrar uma correlação limpa. Não encontrei.

Os Estados Unidos são, disparados, a maior potência do mundo. Isso não está em discussão, por mais que certos grupos torçam o nariz para o dado ou finjam que ele não existe. O que me surpreendeu foi outra coisa: essa potência não se explica pelo americano médio. O americano médio não é mais capaz que o coreano médio, que o finlandês médio, que o japonês médio. Em várias medições ele aparece atrás.

A explicação está em outro lugar. Os Estados Unidos são o lugar do mundo para onde os melhores cérebros dos outros lugares se mudam. Não porque nasceram lá. Porque chegaram lá.

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Fiquei um tempo achando que essa era a tese inteira. Não é. Falta metade.

Existe país com média escolar melhor que a americana que enterra os próprios melhores quadros em concurso público, em burocracia, em formulário carimbado, ou simplesmente os vê embarcar num voo de ida. Talento bruto o mundo tem de sobra, distribuído com uma generosidade razoavelmente democrática. O que é raro é a estrutura capaz de colocar esse talento para funcionar. A semente é abundante. O solo é que é escasso.

E o solo americano teve sorte. Dois oceanos de distância de todo mundo, nenhuma guerra no próprio quintal justamente no século em que o mundo se destruiu, terra farta, universidade com dinheiro, um mercado disposto a financiar o fracasso de gente jovem sem pedir desculpas por isso. Nada disso foi mérito de alguém em particular. Foi ponto de partida.

Mas manter-se aberto não é sorte. Isso é decisão tomada de novo a cada geração, e é a parte frágil da história, a parte que uma canetada revoga. Um porto só é porto enquanto deixa os navios entrarem.

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Guardei esse pensamento e ele foi esbarrar, sem que eu pedisse, numa discussão que tive há algum tempo com um sujeito na internet.

Ele falava sobre a natureza da espiritualidade, sobre religião, sobre o funcionamento da realidade, e falava com uma segurança impressionante. A foto do perfil era milimétrica: o bigode com as pontas finas enroladas para cima, o queixo na posição certa, o olhar de lado, aquele olhar que já vem com uma nota de rodapé explicando ao visitante que ele está diante de alguém muito inteligente.

As opiniões não acompanhavam a foto. Eram limitadas, repetidas, sem nenhuma curiosidade viva dentro delas. E tinha um detalhe que me ficou atravessado: ele distribuía a palavra “irracional” para todo mundo que discordava dele. Sem ser provocado. Sem ser chamado de nada. Disparava do nada, pelo prazer de dizer, pelo conforto de se sentir superior por alguns segundos.

Levei um tempo para perceber que eu estava pensando no mesmo assunto duas vezes.

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Os dois casos são sobre a distância entre o sinal e a coisa.

Mas tem uma inversão importante, e é ela que salva este texto de virar sermão. O país não está posando. Os Estados Unidos não fingem ser geniais. Acontece apenas que o ativo real deles é mais modesto, mais prosaico e muito mais copiável do que a genialidade que lhes atribuem: ser um lugar onde gente boa quer morar. Um vive de vitrine. O outro vive de porto.

E aí a coisa fecha. A arrogância não é apenas desagradável. Ela é geográfica. Ela fecha fronteira.

O homem do bigode afasta, com cada “irracional” que dispara, exatamente as únicas pessoas que poderiam torná-lo mais inteligente do que ele é. Quem discorda vai embora ou nem chega perto. Sobra quem concorda, e quem concorda não ensina nada a ninguém. Ele construiu um país fechado dentro da própria cabeça e depois estranha que lá dentro não nasça nada novo há anos.

Ninguém emigra para um lugar onde vai ser chamado de irracional na chegada.

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Fica o alerta para quem lê, e ele vale primeiro para mim.

Não tente mostrar nada para ninguém. É tempo perdido. Se você é, isso vai aparecer sem esforço nenhum, inevitavelmente, e quase sempre no momento em que você não estava tentando. Se você não é, o disfarce não engana ninguém que esteja de fora. Quem olha de fora enxerga com uma clareza que assusta. A pose sinaliza, com precisão quase cruel, justamente aquilo que falta.

Não é vergonhoso não ser inteligente. Não é vergonhoso não ter dinheiro. Vergonhoso é querer parecer o que não se é, ou querer parecer ter o que não se tem, e o caminho que leva uma pessoa até esse ponto tem quase sempre o mesmo nome. Arrogância é normal, todo mundo carrega um pouco. O erro está em cultivá-la, regá-la, deixar que ela decida as frases. Você mesmo acha insuportável a arrogância dos outros. Não há motivo para a sua ser diferente.

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No fim sobrou uma pergunta melhor do que a que eu costumava fazer.

A pergunta errada é “como eu pareço mais inteligente?”. A pergunta boa é outra, e é quase uma pergunta de imigração: quem gostaria de morar aqui dentro? Quem teria vontade de pensar junto comigo, discordar de mim, me corrigir, e sair da conversa sem ter levado um carimbo na testa?

Uma pessoa também é um território. Tem fronteira, tem política de entrada, tem clima. E ninguém cresce pelo que exibe na vitrine. Cresce pelo que consegue atrair e, depois, pelo que consegue segurar.

O bigode é fácil de enrolar. O porto dá trabalho.