Um convite de amigos para um festival na Ilha do Mel. Uma esposa cansada demais para ir. E um marido que decide invocar, com toda a seriedade jurídica, uma cláusula do contrato de casamento. O que acontece quando o clima, as pousadas lotadas e uma mensagem de WhatsApp resolvem entrar na negociação?
Uma crônica bem-humorada, sem tese e sem autor citado. Ou quase.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Eu estava em casa resolvendo pendências quando o grupo de amigos acendeu: "André, vamos para a Ilha do Mel, vai ter um festival." Quem me conhece sabe o estrago que uma mensagem dessas faz na minha produtividade — aquela ilha é o meu lugar preferido no mundo, praia e verde ao mesmo tempo, uma chácara flutuando no oceano.
Mas a Letícia, com toda a razão, estava cansada da rotina e dos preparativos da nossa viagem de dezoito dias à Itália. "Dessa vez acho que não vou, amor. Quero descansar." Foi quando apresentei, com a devida seriedade jurídica, uma cláusula do nosso contrato: quando ela assinou o papel do casamento, assinou também um veículo que roda com um combustível específico — praia, sol, natureza, amigos, música à beira-mar. Me abastecer com outro é como pôr gasolina em motor a diesel: funciona uns dias, depois pifa.
Aí a previsão me deu um susto: sol, três dias enfileirados, em pleno inverno. Mas as pousadas estavam todas lotadas para casal. Um amigo mandou a lista de WhatsApp das pousadas, e no meio delas a mais desejada da ilha — dessas que vivem reservadas o ano inteiro. Tinham vaga, mas o preço era exatamente o que eu temia; melhor guardar para o gelato italiano.
Então fiz aquilo que exige um pouco de vergonha e cara de pau na proporção exata: perguntei se teriam algum desconto. A resposta: "Temos uma promoção: paga uma, ganha duas."
Pois está resolvido — Letícia vai poder abastecer o marido conforme contrato. E arrisco um palpite com todas as fichas: esse cansaço dela, em pleno inverno de Curitiba, pode ter um nome curto — vitamina D. Três dias de sol em julho não é fim de semana, é reposição.
Um ensaio sem tese, sem autor citado, sem reflexão filosófica. Apenas uma comemoração. Mas — sol raro, todas as pousadas lotadas menos a desejada, a promoção chegando depois que desisti — para quem gosta de acreditar nessas coisas que andam me acontecendo: pelo menos fortalece o conjunto.
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Eu estava em casa, resolvendo o que se acumula — essas pendências que a gente empurra a semana inteira e que combinam de vencer todas juntas —, quando o grupo de amigos acendeu: "André, vamos para a Ilha do Mel no fim de semana. Vai ter um festival. Queremos você lá."
Quem me conhece sabe o tamanho do estrago que uma mensagem dessas faz na minha produtividade. Eu amo aquela ilha. Vivo em dúvida se o meu lugar preferido no mundo é praia ou é verde — e a Ilha do Mel resolve a dúvida por mim, porque é os dois: uma quase-selva com mar, uma chácara flutuando no oceano, sem um carro sequer, onde o único veículo de locomoção disponível é a bicicleta. Ir para lá é viajar para outra época sem sair da minha própria época.
Minha esposa, com toda a razão do mundo, estava cansada. Cansada da rotina, cansada de resolver comigo os preparativos de uma viagem bem maior que faremos daqui a algumas semanas — dezoito dias fora do país. "Dessa vez acho que eu não vou, amor. Quero descansar."
Foi quando eu apresentei a ela, com a seriedade jurídica que o assunto merece, uma cláusula do nosso contrato: "Meu amor, quando você assinou aquele papel do casamento, você assinou um contrato. E eu sou, claramente, um veículo que roda com um combustível específico. Me abastecer com outro é como colocar gasolina em motor a diesel: funciona por uns dias, depois pifa. E o meu combustível é praia, sol, natureza, amigos, música à beira-mar, luar, esporte e diversão — pelo menos nos fins de semana. Porque no resto do tempo eu fico aqui, trancado sozinho num quarto, escrevendo esses ensaios que você revisa. Se eu não sair para viver um pouco, o próximo ensaio sai maluco."
Abri a previsão do tempo e levei um susto: sol. Sexta, sábado e domingo — sol. Em pleno inverno. Nas duas últimas vezes que fui à ilha, choveu; agora, três dias limpos enfileirados, como se alguém tivesse passado pano no céu.
Abri então todos os sites de pousada que eu conhecia. Nada. Rigorosamente nada para um casal: os quartos de dois estavam todos tomados, e o que sobrava era para grupos grandes — e nós não tínhamos com quem dividir. Além do que, levar minha esposa para "descansar" num quarto compartilhado seria sacanagem demais até para os padrões deste veículo.
Aí um amigo mandou uma lista com os WhatsApps das pousadas da ilha. No meio delas, uma das mais desejadas — dessas que vivem reservadas o ano inteiro. Mandei mensagem para todas, na tática do arrastão, já sabendo de antemão duas coisas: que a desejada dificilmente teria vaga, e que, se tivesse, o preço não faria sentido para alguém que precisa economizar para dezoito dias de Itália.
Resposta: tinham vaga. O preço: exatamente o que eu temia. Naquelas condições, era mais sensato guardar a diferença para gastar em gelato.
E aí eu fiz aquilo que exige um pouco de vergonha e um tanto de cara de pau, na proporção exata: mandei uma mensagenzinha. "Vocês teriam alguma condição especial? Algum desconto?" Quem sabe. Custa perguntar. Fechei o aplicativo e fui mandar mensagem para as outras.
Ela respondeu: "Temos sim! Estamos com uma promoção: paga uma, ganha duas."
Pois então está resolvido. A minha esposa, Letícia, vai poder abastecer o marido, neste fim de semana, com o combustível correto — conforme contrato.
E ainda arrisco um palpite, com todas as minhas fichas: esse cansaço dela, em pleno inverno de Curitiba, pode muito bem ter um nome curto — vitamina D. Talvez o remédio que ela procura esteja exatamente no lugar onde ela achava que não iria recuperar energia nenhuma. Três dias de sol em julho não é fim de semana: é reposição.
Assim encerro o ensaio de hoje, que não tem nada do que os outros têm. Nenhuma reflexão filosófica, nenhuma tese, nenhum autor citado. Apenas uma comemoração.
Ei. Espera, espera, espera aí. Antes de encerrar de verdade.
Sol raro de três dias enfileirados, todas as pousadas lotadas menos justamente a mais desejada, e a resposta chegando com promoção depois que eu já tinha desistido do preço... Talvez isso possa contar como mais um, né? Eu avisei que essas coisas andavam acontecendo comigo. Avisei ou não avisei?
Não significa absolutamente nada, está bem. Mas, para aqueles que gostam de acreditar: pelo menos fortalece o conjunto.
Tchau.