Letra
Filosofia da Lucidez · Ensaio

O Combustível Correto

Sobre contratos de casamento, sobre pousadas lotadas,
sobre uma promoção que chegou na hora.

Eu estava em casa, resolvendo o que se acumula — essas pendências que a gente empurra a semana inteira e que combinam de vencer todas juntas —, quando o grupo de amigos acendeu: "André, vamos para a Ilha do Mel no fim de semana. Vai ter um festival. Queremos você lá."

Quem me conhece sabe o tamanho do estrago que uma mensagem dessas faz na minha produtividade. Eu amo aquela ilha. Vivo em dúvida se o meu lugar preferido no mundo é praia ou é verde — e a Ilha do Mel resolve a dúvida por mim, porque é os dois: uma quase-selva com mar, uma chácara flutuando no oceano, sem um carro sequer, onde o único veículo de locomoção disponível é a bicicleta. Ir para lá é viajar para outra época sem sair da minha própria época.

Minha esposa, com toda a razão do mundo, estava cansada. Cansada da rotina, cansada de resolver comigo os preparativos de uma viagem bem maior que faremos daqui a algumas semanas — dezoito dias fora do país. "Dessa vez acho que eu não vou, amor. Quero descansar."

Foi quando eu apresentei a ela, com a seriedade jurídica que o assunto merece, uma cláusula do nosso contrato: "Meu amor, quando você assinou aquele papel do casamento, você assinou um contrato. E eu sou, claramente, um veículo que roda com um combustível específico. Me abastecer com outro é como colocar gasolina em motor a diesel: funciona por uns dias, depois pifa. E o meu combustível é praia, sol, natureza, amigos, música à beira-mar, luar, esporte e diversão — pelo menos nos fins de semana. Porque no resto do tempo eu fico aqui, trancado sozinho num quarto, escrevendo esses ensaios que você revisa. Se eu não sair para viver um pouco, o próximo ensaio sai maluco."

Abri a previsão do tempo e levei um susto: sol. Sexta, sábado e domingo — sol. Em pleno inverno. Nas duas últimas vezes que fui à ilha, choveu; agora, três dias limpos enfileirados, como se alguém tivesse passado pano no céu.

Abri então todos os sites de pousada que eu conhecia. Nada. Rigorosamente nada para um casal: os quartos de dois estavam todos tomados, e o que sobrava era para grupos grandes — e nós não tínhamos com quem dividir. Além do que, levar minha esposa para "descansar" num quarto compartilhado seria sacanagem demais até para os padrões deste veículo.

Aí um amigo mandou uma lista com os WhatsApps das pousadas da ilha. No meio delas, uma das mais desejadas — dessas que vivem reservadas o ano inteiro. Mandei mensagem para todas, na tática do arrastão, já sabendo de antemão duas coisas: que a desejada dificilmente teria vaga, e que, se tivesse, o preço não faria sentido para alguém que precisa economizar para dezoito dias de Itália.

Resposta: tinham vaga. O preço: exatamente o que eu temia. Naquelas condições, era mais sensato guardar a diferença para gastar em gelato.

E aí eu fiz aquilo que exige um pouco de vergonha e um tanto de cara de pau, na proporção exata: mandei uma mensagenzinha. "Vocês teriam alguma condição especial? Algum desconto?" Quem sabe. Custa perguntar. Fechei o aplicativo e fui mandar mensagem para as outras.

Ela respondeu: "Temos sim! Estamos com uma promoção: paga uma, ganha duas."

Pois então está resolvido. A minha esposa, Letícia, vai poder abastecer o marido, neste fim de semana, com o combustível correto — conforme contrato.

E ainda arrisco um palpite, com todas as minhas fichas: esse cansaço dela, em pleno inverno de Curitiba, pode muito bem ter um nome curto — vitamina D. Talvez o remédio que ela procura esteja exatamente no lugar onde ela achava que não iria recuperar energia nenhuma. Três dias de sol em julho não é fim de semana: é reposição.

Assim encerro o ensaio de hoje, que não tem nada do que os outros têm. Nenhuma reflexão filosófica, nenhuma tese, nenhum autor citado. Apenas uma comemoração.

Ei. Espera, espera, espera aí. Antes de encerrar de verdade.

Sol raro de três dias enfileirados, todas as pousadas lotadas menos justamente a mais desejada, e a resposta chegando com promoção depois que eu já tinha desistido do preço... Talvez isso possa contar como mais um, né? Eu avisei que essas coisas andavam acontecendo comigo. Avisei ou não avisei?

Não significa absolutamente nada, está bem. Mas, para aqueles que gostam de acreditar: pelo menos fortalece o conjunto.

Tchau.