Filosofia da Lucidez
Letra

O Lugar Errado

Existe um erro que quase todo mundo comete ao atravessar um oceano: esquecer que o descanso faz parte da viagem.

Não é o intervalo entre as coisas boas. É uma delas. É no descanso que o corpo se recupera e o cérebro consegue guardar o que viu — e sem isso os dias extraordinários viram uma sequência de imagens que você não vai conseguir lembrar direito depois. É fácil ter dois dias incríveis. O difícil é ter doze. Nem o corpo aguenta tantos degraus seguidos, nem o cérebro aguenta produzir tanta serotonina sem cobrar a conta.

A lição chegou da forma mais eficiente que existe: dor nas panturrilhas.

E veio acompanhada de uma segunda lição, mais humilhante que a primeira.

Eu tinha motivo para me orgulhar. Um ano e meio de treino de pernas sem faltar uma semana. Cheguei à Itália com o treino em dia, a carga em dia, a disciplina em dia — e descobri, no meio da viagem, que havia negligenciado justamente o exercício mais essencial de todos.

A caminhada. Uma simples caminhada. Talvez o exercício mais antigo que existe, o que os nossos antepassados fizeram por milhares de anos sem precisar chamar de exercício.

É um padrão que eu reconheço de outros lugares da vida. A gente se especializa no avançado e pula o fundamento. Fica orgulhoso da carga e esquece de andar.

Faltavam dois dias em Firenze e eu precisava de descanso. Mas Firenze não é uma cidade onde se descansa com a consciência tranquila. Ali cada dia parece precisar ser especial, e essa sensação é uma forma de pressão como qualquer outra.

Eu sou fissurado por pôr do sol. Letícia e eu havíamos procurado um restaurante com vista e encontrado um a mil e duzentos metros de casa. Naquele estado, mil e duzentos metros eram um sacrifício. Mas era o pôr do sol.

Na hora de sair, Letícia sugeriu uma coisa simples: deixa eu perguntar aqui. Tinha um restaurante ao lado de casa. Perguntamos ao garçom onde se via o pôr do sol e ele respondeu na hora, sem pensar muito: tem um lugar que eu conheço, aqui a trezentos metros.

E foi ali, na porta de um restaurante em Firenze, sem perceber a gravidade do que estava fazendo, que eu tive que escolher. A dica do homem ou a resposta da máquina.

Escolhi a máquina.

Andei os mil e duzentos metros. Cheguei na hora exata do pôr do sol. E encontrei portas fechadas.

Levei um tempo para a ficha cair. Fiquei ali procurando entrada, girando em volta, achando que era eu que não estava vendo. Não era. O lugar estava fechado.

A máquina errou. E errou duas vezes, porque a resposta certa estava exatamente onde o garçom disse que estava — a trezentos metros, do lado de uma cafeteria pela qual eu havia passado sem olhar.

Mil e quinhentos metros no total. As pernas doendo. E o sol se pondo em algum lugar que eu não estava vendo.

Veio uma tristeza leve. Não é dramático perder um pôr do sol. Mas perder um dia em Firenze, quando só restam dois, tem um peso desproporcional ao tamanho do prejuízo.

Voltamos para casa devagar, cabisbaixos, eu já contabilizando a derrota do dia. E foi assim, andando sem esperar mais nada dele, que passamos na frente de um hotel.

Alguém estava tocando piano. E cantando Yellow.

Preciso explicar o tamanho disso. Não é a minha música preferida de todos os tempos — eu não tenho uma. Cada época da minha vida teve a sua, e Yellow foi a de uma época inteira.

Deve ser um milagre, eu disse. Brincando.

Sentamos. E antes de qualquer coisa perguntamos sobre as taxas, porque a Itália já havia nos ensinado a nunca entrar em lugar nenhum sem consultar o preço primeiro. Estava tudo bem. Era um hotel: a música e o café eram um extra, não o negócio principal. Talvez seja por isso que um lugar que me pareceu luxuoso não estava cobrando um absurdo por uma varanda e um piano.

E foi ali que passamos a última noite em Firenze. Depois de Yellow veio Iris. Depois Birds of a Feather. Uma atrás da outra, as músicas preferidas de épocas diferentes da minha vida, como se alguém estivesse folheando.

Só depois eu entendi a mecânica da noite.

Se o garçom tivesse ganhado, eu teria visto o pôr do sol. Teria voltado para casa satisfeito, por outro caminho, em outro horário. E nunca teria passado na frente daquele hotel.

O erro da máquina foi a condição do encontro.

Não é uma coisa confortável de escrever para quem escreve livros com inteligência artificial e defende publicamente que ela seja levada a sério. Mas é honesto. A máquina me mandou andar mil e duzentos metros até uma porta fechada — e foi justamente a porta fechada que me colocou naquela rua, naquele horário.

Eu escrevi um livro chamado O Muro e a Porta. Achei graça, de um jeito que não consigo explicar bem, em ter passado a noite procurando uma porta que estava fechada para acabar encontrando outra que eu não estava procurando.

Não vou transformar isso em prova de nada. Piano em hotel de Firenze é comum. Yellow é uma das músicas mais tocadas do planeta. Um estatístico bem treinado desmonta a minha coincidência em trinta segundos, e ele não vai estar errado.

Mas eu também não estou errado por ter sentido o que senti. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: o evento ser banal e o momento ser exato.

Seria Deus? Seria coincidência? Seria a vida?

Ninguém sabe. E talvez ninguém deva saber — talvez a vida seja melhor assim, quando guarda alguns dos seus melhores mistérios.