Filosofia da Lucidez
Letra

O Lugar Errado

Existe um erro que quase todo mundo comete ao atravessar um oceano: esquecer que o descanso faz parte da viagem.

Não é o intervalo entre as coisas boas. É uma delas. É no descanso que o corpo se recupera e o cérebro consegue guardar o que viu — e sem isso os dias extraordinários viram uma sequência de imagens que você não vai conseguir lembrar direito depois. É fácil ter dois dias incríveis. O difícil é ter doze. Nem o corpo aguenta tantos degraus seguidos, nem o cérebro aguenta produzir tanta serotonina sem cobrar a conta.

A lição chegou da forma mais eficiente que existe: dor nas panturrilhas.

✦

E veio acompanhada de uma segunda lição, mais humilhante que a primeira.

Eu tinha motivo para me orgulhar. Um ano e meio de treino de pernas sem faltar uma semana. Cheguei à Itália com o treino em dia, a carga em dia, a disciplina em dia — e descobri, no meio da viagem, que havia negligenciado justamente o exercício mais essencial de todos.

A caminhada. Uma simples caminhada. Talvez o exercício mais antigo que existe, o que os nossos antepassados fizeram por milhares de anos sem precisar chamar de exercício.

É um padrão que eu reconheço de outros lugares da vida. A gente se especializa no avançado e pula o fundamento. Fica orgulhoso da carga e esquece de andar.

✦

Faltavam dois dias em Firenze e eu precisava de descanso. Mas Firenze não é uma cidade onde se descansa com a consciência tranquila. Ali cada dia parece precisar ser especial, e essa sensação é uma forma de pressão como qualquer outra.

Eu sou fissurado por pôr do sol. Letícia e eu havíamos procurado um restaurante com vista e encontrado um a mil e duzentos metros de casa. Naquele estado, mil e duzentos metros eram um sacrifício. Mas era o pôr do sol.

Na hora de sair, Letícia sugeriu uma coisa simples: deixa eu perguntar aqui. Tinha um restaurante ao lado de casa. Perguntamos ao garçom onde se via o pôr do sol e ele respondeu na hora, sem pensar muito: tem um lugar que eu conheço, aqui a trezentos metros.

E foi ali, na porta de um restaurante em Firenze, sem perceber a gravidade do que estava fazendo, que eu tive que escolher. A dica do homem ou a resposta da máquina.

Escolhi a máquina.

✦

Andei os mil e duzentos metros. Cheguei na hora exata do pôr do sol. E encontrei portas fechadas.

Levei um tempo para a ficha cair. Fiquei ali procurando entrada, girando em volta, achando que era eu que não estava vendo. Não era. O lugar estava fechado.

A máquina errou. E errou duas vezes, porque a resposta certa estava exatamente onde o garçom disse que estava — a trezentos metros, do lado de uma cafeteria pela qual eu havia passado sem olhar.

Mil e quinhentos metros no total. As pernas doendo. E o sol se pondo em algum lugar que eu não estava vendo.

Veio uma tristeza leve. Não é dramático perder um pôr do sol. Mas perder um dia em Firenze, quando só restam dois, tem um peso desproporcional ao tamanho do prejuízo.

✦

Voltamos para casa devagar, cabisbaixos, eu já contabilizando a derrota do dia. E foi assim, andando sem esperar mais nada dele, que passamos na frente de um hotel.

Alguém estava tocando piano. E cantando Yellow.

Preciso explicar o tamanho disso. Não é a minha música preferida de todos os tempos — eu não tenho uma. Cada época da minha vida teve a sua, e Yellow foi a de uma época inteira.

Deve ser um milagre, eu disse. Brincando.

Sentamos. E antes de qualquer coisa perguntamos sobre as taxas, porque a Itália já havia nos ensinado a nunca entrar em lugar nenhum sem consultar o preço primeiro. Estava tudo bem. Era um hotel: a música e o café eram um extra, não o negócio principal. Talvez seja por isso que um lugar que me pareceu luxuoso não estava cobrando um absurdo por uma varanda e um piano.

E foi ali que passamos a última noite em Firenze. Depois de Yellow veio Iris. Depois Birds of a Feather. Uma atrás da outra, as músicas preferidas de épocas diferentes da minha vida, como se alguém estivesse folheando.

✦

Só depois eu entendi a mecânica da noite.

Se o garçom tivesse ganhado, eu teria visto o pôr do sol. Teria voltado para casa satisfeito, por outro caminho, em outro horário. E nunca teria passado na frente daquele hotel.

O erro da máquina foi a condição do encontro.

Não é uma coisa confortável de escrever para quem escreve livros com inteligência artificial e defende publicamente que ela seja levada a sério. Mas é honesto. A máquina me mandou andar mil e duzentos metros até uma porta fechada — e foi justamente a porta fechada que me colocou naquela rua, naquele horário.

Eu escrevi um livro chamado O Muro e a Porta. Achei graça, de um jeito que não consigo explicar bem, em ter passado a noite procurando uma porta que estava fechada para acabar encontrando outra que eu não estava procurando.

✦

Não vou transformar isso em prova de nada. Piano em hotel de Firenze é comum. Yellow é uma das músicas mais tocadas do planeta. Um estatístico bem treinado desmonta a minha coincidência em trinta segundos, e ele não vai estar errado.

Mas eu também não estou errado por ter sentido o que senti. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: o evento ser banal e o momento ser exato.

Seria Deus? Seria coincidência? Seria a vida?

Ninguém sabe. E talvez ninguém deva saber — talvez a vida seja melhor assim, quando guarda alguns dos seus melhores mistérios.