Sobre uma rede na Ilha do Mel, sobre pessoas chatas e sobre o lugar que espera por cada uma delas
André Rigonato Cunha · 18 de julho de 2026
Cheguei à Ilha do Mel com pressa, esquecendo coisas pelo caminho — e encontrei uma pousada que tinha pensado em tudo por mim. Deitado numa rede, sob um céu absurdo de estrelas, uma pergunta me tirou do descanso: que tipo de mente organiza algo tão impecável? A resposta me levou a um tipo de gente que todo mundo conhece e quase ninguém agradece — e, dali, a uma suspeita sobre o desenho do mundo.
Uma crônica que começa numa rede e termina numa aposta.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Cheguei à Ilha do Mel já de noite, saindo correndo, e na pressa esqueci coisas que costumo resolver com calma. Desembarquei incompleto. A primeira surpresa veio de cima: um céu absurdamente estrelado. A segunda veio da pousada — tudo o que eu não tinha pensado, ela tinha pensado por mim, encaixando exatamente nos buracos que a minha pressa deixou.
Mais tarde, na rede, o corpo relaxou e a mente disparou, como sempre. E o que disparou foi a segunda surpresa. Porque aquela pousada é impecável — não no sentido de luxuosa, mas de pensada. A pergunta que me tirou do descanso foi simples: que tipo de mente organiza uma coisa dessas?
Alguém que confere, revisa, implica com o milímetro. Alguém que costumamos chamar, pelas costas, de chato. Exigente demais, perfeccionista, detalhista num grau que incomoda — e que, aposto, não foi compreendido em muitos lugares por onde passou. Até chegar a um lugar que parecia estar esperando por ela, onde cada suposta mania virou exatamente aquilo de que o lugar precisava. Escrevi há pouco sobre a hora exata; nesta rede, começo a desconfiar que existe também o lugar exato.
Ainda bem que existem pessoas chatas.
São elas que fazem pousadas impecáveis, pontes que não caem, aviões que pousam com uma rotina entediante de segurança. Mas veio uma segunda gratidão, igualmente necessária: ainda bem que não existem só elas. Precisamos também das pessoas tranquilas, das que resolvem simples e seguem em frente, das que destravam o grupo com um dar de ombros. Há momentos em que a vírgula importa demais — e momentos em que insistir na vírgula é perder o parágrafo.
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E aqui a reflexão deixa de ser sobre pousadas. Eu poderia tratar essa variedade de temperamentos como acidente, ruído estatístico da espécie. Mas não consigo: a diferença não me parece ruído, e sim estrutura. Cada temperamento cobre um flanco que os outros deixam aberto, e a insuficiência de cada um tem o formato exato da suficiência de outro. Se há um Autor por trás desta existência — e quem me lê sabe que eu aposto que há —, a diversidade de temperamentos não parece distração d'Ele. Parece gramática.
A rede em que estou deitado encerra o argumento melhor do que eu: é o puxar de cada fio em direções opostas que me sustenta no ar. Se todos cedessem para o mesmo lado, eu estaria no chão — em vez de aqui, de frente para um céu inteiro de estrelas.
Viva a nossa diferença.
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Cheguei à Ilha do Mel já de noite. Saímos correndo, cansados, e na pressa esqueci algumas das coisas que costumo resolver quando tenho mais tempo. Desembarquei do jeito que a vida apressada gosta de nos entregar: incompleto.
A primeira surpresa veio de cima: um céu absurdamente estrelado e uma lua daquelas que não pedem a contemplação — convocam.
A segunda surpresa veio da pousada. Tudo aquilo que eu não tinha pensado, ela tinha pensado por mim. Água gelada no frigobar, vinda direto da fonte. Latas de cerveja de cortesia. Entre outros mimos. Cuidados que não são comuns nas acomodações da ilha — e que encaixaram exatamente nos buracos que a minha pressa tinha deixado.
Mais tarde, na rede, o corpo finalmente entendeu o recado: pé descalço, brisa, silêncio. A cabeça, como de costume, fez o caminho contrário. Corpo que relaxa, mente que dispara — quem me lê já conhece essa equação.
E o que disparou o pensamento foi justamente a segunda surpresa.
Porque ela é impecável. Não impecável no sentido de luxuosa — impecável no sentido de pensada. Desde a reserva, alguém acompanha cada passo. Na chegada, tudo já está resolvido antes de eu perceber que precisaria ser. Cada placa está exatamente no lugar onde a dúvida nasceria. Cada detalhe é pequeno demais para ser notado individualmente — e é justamente por isso que funciona: ninguém nota os detalhes, todo mundo sente a experiência. Não é à toa que é uma das pousadas mais procuradas da ilha.
Deitado na rede, a pergunta que me tirou do descanso foi simples: que tipo de mente organiza uma coisa dessas?
Porque ninguém constrói algo tão acima da média sendo mediano no cuidado. Alguém pensou naquela placa. Alguém decidiu que a mensagem de confirmação teria aquele tom. Alguém confere, revisa, ajusta, implica com o milímetro. E esse alguém, aposto, é o que nós costumamos chamar — pelas costas, claro — de chato.
Exigente demais. Perfeccionista. Detalhista num grau que incomoda. Aquela pessoa que devolve o trabalho pela terceira vez por causa de uma vírgula, que refaz o que já estava “bom o suficiente”, que não descansa enquanto a coisa não fica do jeito que ela enxergou na cabeça.
E imagino — é um palpite, mas é um palpite com lastro — que essa pessoa não foi compreendida em todos os lugares por onde passou. Temperamentos assim raramente são. Na maioria dos ambientes, esse nível de exigência gera atrito: atrasa entregas, cansa colegas, soa como implicância. Ela deve ter ouvido muitas vezes que estava exagerando. Que ninguém repara nessas coisas. Que era só relaxar.
Até o dia em que chegou a um lugar que parecia estar esperando por ela. Um lugar onde cada uma daquelas supostas manias deixou de ser defeito e virou exatamente aquilo de que o lugar precisava. O mesmo temperamento, intacto — só que agora no contexto certo. Escrevi há pouco tempo sobre a hora exata. Deitado nesta rede, começo a desconfiar que existe também o lugar exato: o ponto do mundo onde um jeito de ser inteiro, com todas as suas arestas, finalmente encaixa.
Por isso, a primeira coisa que me veio foi gratidão — e de um tipo bem específico.
Ainda bem que existem pessoas chatas.
Falo sério. Agradeço às pessoas chatas deste mundo. São elas que fazem pousadas impecáveis, pontes que não caem, cirurgias que terminam bem, contratos sem brecha, aviões que decolam e pousam com uma rotina entediante de segurança. Toda vez que algo funciona tão bem que a gente nem percebe que funcionou, há uma pessoa exigente por trás — alguém que brigou por detalhes que nós nunca saberemos que existiram.
Mas aí veio a segunda gratidão, tão necessária quanto a primeira: ainda bem que não existem só elas.
Porque um mundo habitado apenas por exigentes seria insuportável — chato demais, no outro sentido da palavra. Precisamos também das pessoas tranquilas. Das que acham que está tudo bem. Das que resolvem o problema do jeito mais simples possível e seguem em frente. Das “tanto faz, escolhe você”. Em muitas situações, são elas que salvam o dia: quando o impasse não precisa de rigor, precisa de leveza; quando a decisão não pede análise, pede desapego; quando o grupo travou e alguém precisa dar de ombros para destravar. Há momentos em que a vírgula importa demais — e momentos em que insistir na vírgula é perder o parágrafo.
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E é aqui que a reflexão deixa de ser sobre pousadas.
Eu poderia tratar essa variedade de temperamentos como acidente. Ruído estatístico da espécie: uns nascem assim, outros assado, sorte ou azar de cada um. Mas, honestamente, não consigo. Quanto mais observo, mais me parece que a diferença não é ruído — é estrutura. Cada temperamento cobre um flanco que os outros deixam aberto. O exigente enxerga o detalhe que o tranquilo ignora; o tranquilo atravessa com facilidade o que paralisaria o exigente. O acelerado começa o que o cauteloso jamais começaria; o cauteloso termina o que o acelerado abandonaria pela metade. Ninguém dá conta da existência sozinho — e a insuficiência de cada um tem, curiosamente, o formato exato da suficiência de outro.
Há uma simetria aí. Invisível no dia a dia, cheia de atritos na convivência — mas simetria. Se há um Autor por trás desta existência, e quem me lê sabe que eu aposto que há, então a diversidade de temperamentos não parece distração d'Ele. Parece gramática. Não posso provar, claro; palpites sobre o desenho do mundo não se provam deitado numa rede. Mas entre ler a nossa diferença como defeito de fabricação e lê-la como peça de um arranjo maior, a segunda leitura explica melhor o que eu vejo — inclusive o fato de eu ter desembarcado esquecido e alguém que nunca me viu ter lembrado por mim. Inclusive o fato de uma pousada na Ilha do Mel precisar de uma pessoa chata para ser inesquecível, e de uma noite na Ilha do Mel precisar de gente tranquila para ser noite.
A rede em que estou deitado, aliás, encerra o argumento melhor do que eu. Ela é feita de fios tensionados em direções opostas. É o puxar de cada fio contra os outros que me sustenta no ar. Se todos cedessem para o mesmo lado, eu estaria no chão — em vez de aqui, deitado de frente para um céu inteiro de estrelas.