Filosofia da Lucidez
Letra

O Porsche e o Destino

Voltava do trabalho com a cabeça solta, daquele jeito em que o pensamento vai para onde quer, quando um Porsche parou na minha frente no semáforo. Novo, bonito, vistoso. Engenharia alemã no estado mais puro, dessas que a gente sonha desde menino e nunca deixa de reparar.

E me veio à cabeça um conselho antigo.

✦

Um amigo, entusiasta de carros de verdade, passou anos tentando me convencer de que eu deveria fazer o possível para ter algo daquele nível. Não necessariamente um Porsche, mas o mais próximo disso que eu conseguisse alcançar. Valia o esforço, dizia ele, e não só pelo conforto ou pela tecnologia. Valia pelo pacote inteiro: a sensação de poder, o respeito, o prazer de chegar.

Eu nunca levei muito a sério. Não por falta de gosto: eu gosto, e reparo em cada um que passa. Mas sempre desconfiei que não fizesse sentido dar àquilo tanto espaço na minha vida. E por muito tempo guardei essa desconfiança da forma mais simples possível: ele estava errado, eu estava certo.

Parado ali, atrás do Porsche, percebi que não era nada disso.

✦

Todo conselho prático carrega um “se” escondido. Ninguém o diz em voz alta, mas ele está lá. “Compre o carro” quer dizer, por inteiro: se o que você quer da vida é aproveitar ao máximo tudo o que seus recursos permitirem, compre o carro.

E o projeto de vida dele era exatamente esse. Ele não pretendia ter filhos nem formar família. Queria viver bem, usufruir, desfrutar do que conquistasse. Dentro da visão de mundo dele, o conselho fechava perfeitamente. Não era descuido nem exibição: era coerência. Ele me indicava, com sinceridade, o caminho para o lugar aonde ele próprio queria chegar. Do ponto de vista dele, aliás, quem estava se privando de algo era eu.

O meu destino é outro. Eu quero uma família. E família começa a pedir coisas antes mesmo de os filhos nascerem.

✦

Quando penso nos filhos que ainda não tenho, penso em liberdade. Quero que um dia possam escolher onde estudar, onde trabalhar e onde viver, sem que a escolha seja decidida pela falta. Penso em estabilidade, em atravessar as crises que certamente virão sem que a casa desabe junto.

Uma das estratégias mais eficientes para isso é quase banal: não se acostumar com um padrão de vida difícil de sustentar. O luxo não pesa pelo preço da compra. Pesa porque vira linha de base. A gente se habitua depressa, o extraordinário vira normal, e qualquer recuo passa a doer. Um carro desses cobra no seguro, na manutenção, na pequena batida de estacionamento que custa uma fortuna. Nada disso é tragédia. Mas cada uma dessas coisas ocupa uma margem que eu prefiro manter livre.

Não é renúncia. Um dia talvez eu tenha algo assim. Só não é agora, e não é prioridade.

✦

A pergunta, então, nunca foi quem estava certo. A decisão verdadeira tinha sido tomada muito antes, por cada um de nós, no momento em que escolhemos para onde íamos. O conselho dele e a minha recusa eram consequências, cada uma coerente com o próprio caminho.

Coerente, porém, não quer dizer que eu assinaria embaixo se não quisesse filhos. Os filhos explicam por que, para mim, aquele conselho nunca coube. Não explicam tudo. Não condeno quem compra, e não descarto um dia comprar também; gosto dessas máquinas e não tenho vergonha disso. O que eu não faria, com ou sem filhos, é colocar isso como prioridade absoluta, aquilo em torno do qual a vida se organiza. Das tradições que estudei, nem o cristianismo nem o budismo veem problema em ter coisas boas. O que ambas desaconselham é pôr o coração nelas: um fala de tesouros que a traça corrói, o outro do apego como raiz do sofrimento. Seria desonesto deixar parecer que só a paternidade me separa daquele caminho.

Percebi também outra coisa, menos confortável. Com o tempo, fui me afastando dele. Não houve briga nem julgamento. Aquela filosofia da vida voltada para os bens simplesmente não conversava com a minha. E a filosofia de quem está perto vai, aos poucos, virando um pouco a nossa. Ninguém absorve só o que escolhe absorver.

Isso vale para os dois lados. Há quem viva no extremo oposto, desconfiando de qualquer prosperidade, achando suspeito tentar crescer. Essa convivência também molda, e nem sempre para melhor. Escolher de quem ficamos perto é, de algum jeito, escolher em quem vamos nos tornar.

✦

Não vou dizer que o meu projeto é maior que o dele. Tenho uma convicção, e ela é minha: acredito que a chance de uma vida plenamente satisfeita é maior para quem constrói uma família. Mas convicção não é prova, e eu sei distinguir as duas coisas.

Talvez a própria natureza tenha feito as pessoas assim: umas querendo filhos, outras querendo estrada; umas guardando, outras desfrutando. Se todos quiséssemos a mesma coisa, o mundo seria mais previsível. E bem menos bonito.

O sinal abriu. O Porsche arrancou para o destino dele. Eu segui para o meu.