Imagine uma sociedade convencida de que a busca incessante pela riqueza é o que mais importa. A mensagem está em toda parte: na publicidade, na cultura, no modo silencioso como aprendemos a medir uns aos outros. O que é rico aparece como melhor, mais bonito, mais sofisticado — um degrau acima de uma suposta mediocridade. Não se trata de uma ideia que alguém defende em voz alta. Trata-se de um pressuposto que respiramos sem perceber e que, justamente por não ser dito, quase nunca é examinado.
Quero ser claro sobre o que não estou dizendo. Isto não é um chamado para abolir o sistema, nem uma acusação ao capitalismo como tal. O capitalismo pode ser pensado e conduzido de muitas formas, e várias delas são mais humanas do que a que descrevo aqui — inclusive porque um sistema que cuida das pessoas tende a se sustentar melhor no longo prazo. O problema não está em haver mercado, nem em haver ambição. Está em outro lugar, mais difícil de ver.
Porque a ambição, sozinha, não explica nada. Foi a ambição que ergueu hospitais, financiou descobertas, sustentou obras que levaram séculos. Querer mais não é uma doença. O que adoece uma sociedade são duas coisas mais específicas, que costumam aparecer juntas e por isso se confundem com a ambição.
A primeira é a monocultura do valor: quando todas as dimensões da vida — o afeto, o tempo, a saúde, o que uma pessoa sabe, o que ela é — colapsam numa única métrica, o dinheiro. Onde existe uma só régua, tudo aquilo que ela não mede simplesmente desaparece. A segunda é a queda sem rede: quando não vencer deixa de ser uma frustração e passa a ser uma ameaça real — de humilhação, de exclusão, de vulnerabilidade. Ambição com pluralidade de valores e um piso de dignidade é saudável. A mesma ambição, sem essas duas coisas, vira tudo o que descrevo a seguir.
As consequências aparecem onde uma sociedade guarda o que tem de mais valioso: a mente humana. Na Filosofia da Lucidez, costumo chamá-la de nosso ativo mais precioso a ser administrado — e é exatamente esse ativo que essa lógica corrói. Surgem as jornadas extremas, as metas quase impossíveis, os ambientes desenhados para extrair produtividade e quase nada além disso. As relações humanas passam a ser filtradas pelo interesse. Empresas que entregam cada vez menos e cobram cada vez mais tornam-se normais. Cada exigência, isolada, parece razoável; é a soma delas que adoece.
E há uma dimensão que vai além do que se passa na cabeça das pessoas. Em muitas realidades, a única porta para a riqueza prometida não é legítima. Onde as vias honestas estão fechadas, mas a meta continua sendo cobrada por todos os lados, a transgressão deixa de ser exceção e vira caminho — das pequenas fraudes ao ingresso em mercados ilegais já consolidados, dos estelionatos miúdos às atividades que ferem o tecido social inteiro. Vale separar os dois mecanismos: um age na cabeça, convencendo-nos de que ser rico é ser digno; o outro age na falta de oportunidade, deixando a transgressão como a única saída visível. São problemas distintos e exigem respostas distintas.
E mesmo sem chegar ao crime, há o uso cotidiano da mentira e da pressão psicológica como ferramentas legítimas de crescimento — a manipulação travestida de ambição, do pequeno ao grande. Tudo isso machuca, e o estrago raramente fica contido em quem o pratica.
Numa sociedade onde não vencer se tornou ameaçador, a corrida deixa de ser escolha e vira coação.
É por isso que cuidar da saúde mental de uma sociedade não é apenas administrar bem esse ativo precioso que é a mente. É também, e talvez sobretudo, um trabalho coletivo para que as pessoas se sintam seguras em não ficar ricas — para que não enriquecer não seja perigoso, nem humilhante, nem motivo de vergonha. Repare na inversão: o ponto não é convencer ninguém a abandonar seus sonhos de prosperidade. É retirar da pobreza, e mesmo de uma vida mediana, o castigo que hoje carregam. Devolver a segurança de poder não vencer é devolver às pessoas a liberdade de querer por vontade, e não por medo.
Sei que parte de quem lê pensará em exagero, e com alguma razão: nem toda pessoa vive assim, e há ambientes em que a lucidez sobre isso já é a regra. Mas há muitos que são esmagados por essa lógica, em graus que variam de meio para meio, de grupo para grupo. Encontramos suas versões fracas e moderadas, quase inofensivas, e também as destrutivas, que corroem o tecido social. Nenhuma sociedade é uma coisa só; somos um pouco de cada uma dessas réplicas ao mesmo tempo.
Talvez a pergunta que importe não seja “como vencer”, mas outra, mais difícil: que sociedade queremos ser, quando perder, para tanta gente, ficou caro demais?
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André Rigonato Cunha