Filosofia da Lucidez
Letra

O Púlpito e o Monopólio

Depois de um dia intenso em Ipanema, minha esposa resolve ficar descansando. Mais tarde, à noite, a gente sai de novo. Decido dar uma volta sozinho pela praia. Pego um sorvete, caminho em direção ao mar e lembro, na hora, do que minha mãe acabou de me dizer ao telefone. Aquilo merece um texto, e poucos momentos seriam tão propícios para escrevê-lo quanto este.

Ela me ligou pedindo um endereço. Queria ir à igreja onde uma pastora disse a mim e à minha esposa que não perdêssemos um bom negócio, quando eu ainda estava em dúvida se comprava. Conto essa história no último capítulo de O Muro e a Porta. Se tivéssemos pedido conselho, um “vá em frente” não diria muita coisa. Mas não pedimos nada. Fomos receber uma oração no fim do culto, sem dizer nem o nosso nome, e ela nunca tinha nos visto. Uma semana depois, em outra igreja, um pastor que também não me conhecia apontou, do altar, para o mesmo caminho, de novo sem nenhuma pergunta minha. E a promessa se cumpriu, melhor do que eu imaginava.

Entendo o raciocínio da minha mãe. Se Deus falou ali uma vez, ali deve ser o lugar certo. A igreja que não erra. Quase a escolhida.

Respondi a ela na hora, e respondo aqui também: não sei se existe uma igreja escolhida, dona de todas as verdades. Algumas, claro, chegam mais perto do que outras. Mas, se sou honesto para contar o dia em que aquela igreja acertou, preciso ser honesto também para contar outro dia. Um dia em que ouvi, no mesmo lugar, algo que, para mim, não pode ter vindo de Deus.

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Foi numa quarta-feira, dia de culto, como no dia da previsão. Saí do trabalho pensativo, me perguntando por que, com tantos milagres e tantas evidências pelo mundo, tanta gente ainda resiste às igrejas. Resolvi entrar lá, bem no meio do culto. Não demorou para eu ouvir uma parte da resposta.

O pastor dizia algo como: “não espere viajar com o dinheiro do dízimo e depois se perguntar por que a viagem não foi boa”.

Aquilo me deixou um pouco irritado. Soou quase como uma ameaça. Eu ainda não tinha estudado a Bíblia a fundo, mas me pareceu que nenhum pastor, por mais querido, tinha o direito de fazer esse tipo de chantagem emocional para levar os fiéis ao dízimo.

É verdade que, depois, a igreja mostrou o projeto de uma obra em andamento. Aquele dinheiro provavelmente tinha destino certo, e pode ser que estivesse sendo bem usado. Talvez a obra tenha saído mais cara do que o previsto, e por isso o pastor tenha apelado para técnicas de convencimento mais fortes. Mesmo assim, em casa, fui procurar na Bíblia.

O trecho que costuma sustentar esse tipo de sermão está em Malaquias, e fala a Israel sobre o celeiro do Templo, num contexto bem específico. Já Paulo, quando escreve aos coríntios sobre ofertas, pede o oposto da pressão: que cada um dê o que decidiu no coração, sem tristeza e sem obrigação, porque Deus ama quem dá com alegria. Não encontrei nenhuma passagem, nem interpretação séria de passagem alguma, que autorize alguém a dizer, em nome de Deus, que uma viagem vai ou não vai ser abençoada.

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Não escrevo isto contra aquela igreja, que me fez bem. Continuo achando muito difícil explicar aquela previsão sem admitir que havia algo de divino ali. Mas a outra quarta-feira me ensinou que a mesma instituição que acerta também pode errar. Nenhuma igreja é feita só de acertos, ou só de erros. Nenhum de nós é.

Há coisas que não estão totalmente claras para nós. Nem Jesus, o Filho de Deus, tinha todas as respostas: sobre quando as últimas promessas se cumpririam, disse que nem o Filho sabia, só o Pai.

Mas não ter todas as respostas não é o mesmo que estar sozinho. Isso eu faço questão de repetir sempre que posso: Deus cuida de nós, está perto e ouve as nossas aflições.

O que talvez não exista, em lugar nenhum, é o monopólio da verdade. E quanto antes a gente souber disso, melhor. A fé ingênua, que acredita que alguém, em algum lugar, guarda a verdade absoluta, é a que quebra mais fácil. Entender que um mesmo lugar pode estar perto de Deus e, ainda assim, falhar é o caminho mais seguro para trilhar a sua fé.

E isso não vale só para as igrejas. Vale também para as pessoas mais próximas de você. Alguém pode te ajudar, pode até trazer alguma presença de Deus para a sua vida, e nem por isso está livre de falhar. Inclusive eu, que escrevo estas linhas de frente para o mar.