Há um engano silencioso e muito comum: acreditar que aquilo que não é saudável é apenas aquilo que a lei proíbe. Como se o crime desenhasse a fronteira exata entre o que faz bem e o que faz mal à vida em comum. Mas a lei é o chão, não o teto. Ela nomeia o intolerável — o roubo, a fraude, a violência — e faz bem em nomear. O problema é que a maior parte daquilo que nos adoece, ou que nos cura, mora acima desse chão, num território que nenhum código penal alcança.
Vale começar pela imagem que me parece mais honesta: a de que uma sociedade é menos uma máquina e mais um organismo. Um tecido vivo, feito de relações — de como nos tratamos, de como negociamos, de como lidamos uns com os outros no balcão, no trabalho, na tela. E todo tecido vivo tem saúde ou tem doença. Há células que reparam e há células que corroem. A lei sabe apontar o tumor já formado; ela quase nunca sabe nomear a inflamação lenta, a toxina diária, o pequeno gesto que, repetido por milhões, vai desfiando o pano por dentro. Esse trabalho de nomear — de discernir o que fortalece daquilo que apodrece — não é da lei. É nosso.
E ele começa pequeno. Começa no comerciante que omite uma informação para fechar a venda, que promete um prazo que sabe que não vai cumprir, que desaparece no pós-venda como se o outro deixasse de existir depois de pagar. Nada disso é ilegal; quase tudo isso é corrosivo. Começa também no consumidor — porque o tecido não é feito só por quem vende. Está em quem insiste em premiar, com dinheiro e com atenção, produtos e pessoas cuja conduta claramente degrada o ambiente que todos habitamos. Ninguém está de fora dessa costura. O fio que eu puxo também é meu.
Sobe de escala. Há empresas médias que mantêm ambientes internos francamente tóxicos para a saúde mental de quem trabalha ali — e isso não aparece em processo nenhum, embora apareça no corpo e na cabeça das pessoas. E há a escala grande, onde a diferença deixa de ser de grau e passa a ser de natureza. Uma grande corporação tem inteligência operacional para industrializar o que, no pequeno, seria só uma esperteza. Ela desenha métricas que espremem o trabalhador até o limite. Constrói aplicativos e sistemas afiados para a nossa desconexão, não para o nosso encontro — engenharia fina a serviço da dispersão e da falta de transparência. Coloca substâncias que sabidamente nos fazem mal em alimentos vendidos a quem confia no rótulo. Divulga informações falsas, ou meio verdadeiras — que é a forma mais elegante de mentir: dizer o que é fato para esconder o que importa. E, no limite, ergue modelos de negócio prejudiciais na própria essência — as bets são o exemplo do momento, mas não são o único —, empreendimentos cuja saúde depende, matematicamente, do adoecimento de quem entra.
Nada disso mora na cadeia. Quase tudo isso mora na vida.
Aqui os meus textos deixam de ser jurídicos e passam a ser o que sempre foram: filosóficos. Já argumentei longamente, em O Muro e a Porta, por que um materialismo puro — a ideia de que só existe o que se pesa e se mede — não dá conta de muita coisa que efetivamente acontece entre nós. E se o mundo é maior do que essa régua estreita consegue medir, então não é ingenuidade nem exagero suspeitar de outra coisa: que os nossos gestos têm direção. Que existe, sim, um sentido para onde uma atitude empurra o tecido — para a costura ou para o rasgo. A pergunta séria, diante de cada escolha, deixa de ser apenas “isto é permitido?”. Passa a ser “o que é que eu estou ajudando a crescer?”.
Porque é disso que se trata, no fundo: de direção. Existe um movimento que corre no sentido de uma convivência mais saudável, e existe o movimento contrário. Toda vez que escolho — como quem vende, como quem compra, como quem gerencia, como quem programa — eu me alinho a uma dessas correntes. Querer ser uma célula benigna, uma semente útil, não é querer ser puro nem ingênuo; é apenas decidir, com lucidez, de que lado dessa energia a minha vida vai ficar. E reconhecer que a maior parte dessa decisão acontece exatamente onde a lei não olha.
Termino pelo ponto que, para mim, tira essa conversa do campo do moralismo e a devolve ao campo do bom senso — e até da sobrevivência. Nós prezamos, com razão, pela liberdade. Ela é útil, é essencial, e não abro mão dela. Mas liberdade sem consciência é um motor sem direção: cedo ou tarde bate no muro. A consciência não é o oposto da liberdade; é o que a torna sustentável. E há um detalhe que costumamos esquecer: sociedades de tecido frágil, esgarçado por dentro, ficam mais vulneráveis. Um povo desconfiado, desconectado, adoecido e sozinho é um povo mais fácil de manobrar — e mais disposto a trocar liberdade por qualquer promessa de alívio. Cuidar do tecido social, portanto, não é delicadeza de quem tem tempo sobrando. É a forma mais concreta de cuidar da própria liberdade.
Então a pergunta que fica é simples, ainda que não seja fácil: para onde estamos caminhando? E, dentro dela, a única que cada um pode de fato responder hoje — nesta escolha, agora: eu costuro ou eu rasgo?
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André Rigonato Cunha