Atravessamos Milão quase à meia-noite num táxi de quinhentos mil quilômetros, dirigido por uma senhora de moletom que nos disse, rindo, que Milano is crazy. A Itália que nós, brasileiros, sonhamos não existe para quem mora nela: existe apenas no imaginário de quem está de fora. Ela não devia calor nenhum a nós — já era heroína de outros, os que a esperavam em casa. Dois dias depois, o sol da manhã e dois gatos correndo na minha direção me deram a resposta: a textura da sua vida não depende de endereço. Ela é construída de dentro para fora.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Chegamos ao aeroporto de Bérgamo quase à meia-noite, com quatro horas de atraso e o plano frustrado de fazer a última refeição italiana da viagem. Os restaurantes já estavam fechados; comemos numa lanchonete do próprio aeroporto. E faltava ainda atravessar a cidade até Malpensa, em Milão, para embarcar de volta na manhã seguinte. Ao olharmos o valor no aplicativo, nos assustamos: quase uma hora de corrida que, convertida em reais, passava de um salário mínimo brasileiro.
No ponto de táxi, entre vários carros grandes, havia uma senhora ao lado de um Toyota Corolla com uns dez anos de uso. Tentei fechar um valor abaixo do aplicativo. Ela não quis: só pelo taxímetro, disse. Deve dar mais ou menos isso. Qualquer coisa, eu dou um desconto.
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Quando saiu do carro para nos ajudar com as malas, ficou uma imagem: calça jeans larga, moletom de capuz, o rosto descansado, nenhuma cerimônia. Nada, absolutamente nada, do que nós, brasileiros, imaginamos quando dizemos a palavra Itália.
O carro funcionava bem, mas trazia os anos no corpo — perto de quinhentos mil quilômetros no painel, sem couro, sem luxo, sem multimídia. Nas estações que ela ia trocando tocavam músicas parecidas demais com as das nossas rádios populares.
Perguntei como era morar ali. Moro em Milão, sempre morei, ela disse. Mas vou te falar uma coisa: Milano is crazy. E repetiu, com aquele sotaque, falando do trânsito, da correria, do dia que não cabe no dia.
Foi ali que entendi. Aquela Itália romantizada não existe para quem mora nela. Ela existe apenas no imaginário de quem está de fora. A senhora do Corolla acorda, trabalha, atravessa a cidade, escuta rádio popular, cansa — e a rotina dela se parece muito mais com a de milhões de brasileiros do que com o cartão-postal que nós compramos antes de embarcar.
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Houve ainda um detalhe. Ela havia colocado o taxímetro na tarifa um. No meio do caminho, discutindo quanto convinha carregar no cartão de débito internacional, repetimos várias vezes, em voz alta, o número trezentos — e, a partir daquele momento, o taxímetro passou para a tarifa convencional.
Poderia ter me incomodado. Não me incomodou. O valor final deu exatamente o que haviam dito que daria, nem um euro a mais. E, pensando bem, ela não precisava ser a heroína da nossa noite: já era heroína de outros. Volta e meia trocava mensagens no WhatsApp com alguém, e era por aquelas pessoas que ela estava dirigindo às onze e meia da noite, de moletom, num carro de quinhentos mil quilômetros. Não devia nada a nós. Estava ali por eles.
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O retorno tem sempre alguma crueldade. Desce-se do avião, pega-se a estrada, e as diferenças de infraestrutura aparecem inteiras — o aeroporto, as ruas, as cidades, o comércio. Com o cansaço acumulado dos últimos dias e o corpo em modo econômico de serotonina, a pergunta chega quase sozinha: e se fosse possível ficar?
Cheguei em casa, dormi feito pedra e acordei no dia seguinte. De manhã, fui até o portão pegar o café. Quando voltei, o sol matutino batia de frente em mim, e nossos dois gatos vieram correndo, afobados, na minha direção. A paisagem de sempre ao fundo. E me subiu um calor pela alma.
Não importa onde você esteja. O calor da sua vida — a textura da sua vida — é construído de dentro para fora. Está nos detalhes, no amor que se cultiva pelas pessoas, no cuidado que se tem com o lugar onde se está. A senhora do Corolla, atravessando Milão de moletom por causa de quem a esperava em casa, sabia disso muito antes de mim.
Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Chegamos cansados ao aeroporto de Bérgamo. O voo, que enfim havia decolado, acumulara quase quatro horas de atraso, e sentamos ali com um plano modesto: fazer a última refeição italiana da viagem, uma refeição tradicional, à altura da despedida.
Já passava das onze. Os restaurantes estavam todos fechados. Restou uma lanchonete dentro do próprio aeroporto, dessas feitas para o dia a dia e para as refeições rápidas, sem nenhum charme. Era o que havia disponível. Comemos.
Faltava atravessar a cidade. De Bérgamo até Malpensa, em Milão, para dormir pouco e embarcar de volta na manhã seguinte. Ao olharmos o valor no aplicativo, nos assustamos: quase uma hora de corrida que, convertida em reais, passava de um salário mínimo brasileiro. Aquilo não estava previsto. Viajar para a Europa já é, por si só, muitas coisas não previstas — mas a conta ainda assim doeu.
Fomos até o ponto de táxi mais próximo. Havia vários daqueles carros grandes na fila, e pensei que não precisávamos de nada grande. Mais adiante estava uma senhora, ao lado de um Toyota Corolla com uns dez anos de uso. Vi de longe e sua fisionomia me pareceu familiar: tinha o rosto de alguém que eu conheço aqui no Brasil, os mesmos traços, só que mais relaxada.
Me aproximei para negociar. Queria fechar um valor, algo em torno de duzentos euros, um pouco abaixo dos duzentos e quarenta do aplicativo. Outro taxista se aproximou e conversamos os três: disseram que no taxímetro daria por volta de duzentos e vinte, duzentos e trinta. Tentei fechar em duzentos.
Ela não quis. Só pelo taxímetro, disse. Deve dar mais ou menos isso. Qualquer coisa, eu dou um desconto.
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Quando ela saiu do carro para nos ajudar com as malas, ficou uma imagem: calça jeans larga, um moletom de capuz também largo, o rosto descansado, a postura sem nenhuma cerimônia. Nada, absolutamente nada, do que nós, brasileiros, imaginamos quando dizemos a palavra Itália.
O carro funcionava bem, mas trazia os anos no corpo. Olhei o painel: perto de quinhentos mil quilômetros rodados. Sem couro, sem luxo, sem multimídia — um rádio com aquela interface popular que já seria ultrapassada em 2013. Nas estações que ela ia trocando tocavam músicas que se pareciam demais com as das nossas rádios populares.
Perguntei como era morar ali.
— Moro em Milão, sempre morei. Mas vou te falar uma coisa: Milano is crazy.
E repetiu, com aquele sotaque: crazy, crazy. Depois falou do trânsito, da correria, do dia que não cabe no dia.
Foi ali que entendi. Aquela Itália romantizada não existe para quem mora nela. Ela existe apenas no imaginário de quem está de fora. A senhora do Corolla acorda, trabalha, atravessa a cidade, escuta rádio popular, cansa. A rotina dela se parece muito mais com a rotina de milhões de brasileiros do que com o cartão-postal que nós compramos antes de embarcar.
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Houve ainda um detalhe.
Ela havia colocado o taxímetro na tarifa um. No meio do caminho, eu e Letícia discutíamos quanto convinha carregar no cartão de débito internacional, e repetimos várias vezes, em voz alta, o número trezentos. Talvez trezentos. Acho que trezentos dá. A partir daquele momento, o taxímetro passou para a tarifa convencional.
Poderia ter me incomodado. Não me incomodou. O valor final deu exatamente o que eles haviam dito que daria, nem um euro a mais.
E, pensando bem, ela não precisava ser a heroína da nossa noite. Já era heroína de outros. Volta e meia trocava mensagens no WhatsApp com alguém, e era por aquelas pessoas que ela estava dirigindo às onze e meia da noite, de moletom, num Corolla de quinhentos mil quilômetros. Não devia nada a nós. Estava ali por eles.
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O retorno tem sempre alguma crueldade. Assim que se desce do avião e se pega a estrada, o Brasil aparece inteiro, e as diferenças de infraestrutura são gritantes — o aeroporto, as ruas, as cidades, o comércio, tudo. A sensação é de andar um pouco para trás no tempo.
Some-se a isso os últimos dias de aeroporto e correria, as noites sem o sono suficiente, o corpo em modo econômico de serotonina, e a pergunta chega quase sozinha: e se fosse possível ficar? E se fosse possível morar lá?
Cheguei em casa, dormi feito pedra e acordei no dia seguinte.
De manhã, fui até o portão pegar o café. Quando voltei, o sol matutino batia de frente em mim, e nossos dois gatos vieram correndo, afobados, na minha direção. A paisagem de sempre ao fundo. E me subiu um calor pela alma.
Foi ali que veio a resposta.
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Não importa onde você esteja. O calor da sua vida — a textura da sua vida — é construído de dentro para fora. Está nos detalhes, no amor que se cultiva pelas pessoas, no cuidado que se tem com o lugar onde se está, naquilo que se decide carregar e naquilo que se decide deixar.
A Itália que sonhamos não existe para quem mora nela; e a nossa vida, vista de longe, provavelmente é sonhada por alguém que nunca a viveu. O que existe, em qualquer lugar do mundo, são os pequenos gestos que tornam os dias mais quentes — e a decisão, todo dia, de fazê-los.
A senhora do Corolla, atravessando Milão de moletom às onze e meia da noite por causa de quem a esperava em casa, sabia disso muito antes de mim.