Filosofia da Lucidez
Letra

O Último Voo

Estou sentado num aeroporto, esperando o último voo até minha cidade.

As pernas doem. O corpo já não sabe em que fuso está — o jet lag desfez a ordem das horas e ainda não decidiu qual delas obedecer. A cadeira é de plástico. O painel anuncia o embarque para daqui a pouco, e eu já conferi três vezes, como se olhar fosse adiantar alguma coisa.

Tudo o que eu quero é chegar em casa.

E é aqui, nessa cadeira, com o cansaço fazendo o trabalho que a euforia não deixava fazer, que percebo uma coisa simples e um pouco desconcertante.

Tudo aquilo que eu mais esperava do ano já passou.

A Copa do Mundo passou. A viagem pela Europa passou. Rever quem mora do outro lado do oceano, os abraços demorados, as mesas longas, as conversas que a distância tinha guardado por anos — passou. Há poucos dias eu abria os olhos dentro do que havia esperado por meses. Abria os olhos e estava lá, vivendo aquilo. Agora abro os olhos e estou aqui, contando as horas para embarcar.

Daqui para frente, o que resta do ano é o dia a dia. Os projetos. O trabalho. A rotina.

Escrevo o que resta e paro na palavra.

Porque a palavra denuncia uma conta que eu andei fazendo sem perceber.

Enquanto estávamos na Europa, uma coisa me ocorreu e ficou.

Um dia lá tem exatamente a mesma duração que um dia aqui.

Vinte e quatro horas. Mil quatrocentos e quarenta minutos. Oitenta e seis mil e quatrocentos segundos. O relógio não sabe que aquele dia era especial. Ele não anda mais devagar para caber mais coisa dentro, nem se alonga em respeito à expectativa que eu depositei nele durante um ano inteiro. O segundo que passou numa praça italiana e o segundo que passa nesta cadeira de aeroporto têm rigorosamente o mesmo tamanho.

A diferença não está no dia. Está na conta que fazemos dele.

E a conta que fazemos é curiosa. Elegemos um punhado de dias por ano — a viagem, a data marcada, o evento aguardado — e decidimos que aqueles contam. Os outros, os trezentos e tantos que sobram, tratamos como se fossem abundantes. Baratos. Quase descartáveis. Dias que podem ser vividos de qualquer jeito, porque amanhã vem outro igual, e depois outro, e depois outro.

Invertemos a ordem. Chamamos de exceção justamente o que é regra, e de regra justamente o que é raro.

Se você levar essa contabilidade a sério até o fim, ela fica cruel.

Uma vida de oitenta anos tem cerca de vinte e nove mil dias. Se apenas os dias esperados contam — digamos, generosamente, vinte por ano —, então mil e seiscentos importam e vinte e sete mil não. Noventa e cinco por cento do que você viveu teria sido apenas espera. Antessala. Tempo de passagem entre uma coisa boa e outra.

Ninguém diria isso em voz alta. Ninguém olha para os próprios filhos numa quarta-feira comum e pensa: hoje não conta.

Mas é exatamente assim que a maioria de nós organiza a atenção. E atenção é a única moeda com que se paga a vida.

Não estou defendendo o contrário, que é a correção exagerada de sempre.

Não vou dizer que a viagem não importava, que a Copa era ilusão, que o especial é vaidade e só o cotidiano é verdadeiro. Isso seria apenas trocar um erro por outro, e já existe gente sábia demais para se alegrar com qualquer coisa. Eu esperei aquela viagem. Ela foi boa. Faria tudo de novo.

Os dias marcados existem por um motivo. Eles concentram. Reúnem gente que a vida espalhou. Interrompem a inércia e obrigam a olhar. Têm valor real.

O problema nunca foi o valor que damos ao extraordinário.

É o desconto que aplicamos ao ordinário.

Porque quando olho para trás — de verdade, sem a névoa da expectativa —, o que fez a minha vida ser interessante não foram os eventos que marquei no calendário.

Foi o que fui fazendo nos dias em que não havia nada marcado.

O trabalho feito com empenho numa terça-feira sem graça nenhuma. O texto escrito à noite, depois que a casa dormiu. A conversa que não estava prevista e mudou alguma coisa. A decisão pequena, tomada sem plateia, que só revelou o que valia dez anos depois. A insistência num projeto quando ainda não havia motivo nenhum para acreditar nele — nenhum resultado, nenhum aplauso, nenhuma prova.

Nada disso apareceria numa lista do que eu mais esperava do ano.

E é tudo isso que, somado, virou uma vida.

Os dias especiais são vividos. Os dias comuns são construídos. E o que se constrói é justamente o que fica depois que a viagem acaba.

Chamam o voo daqui a pouco.

Vou chegar em casa tarde, dormir mal, e amanhã começa aquela parte do ano que eu, sem perceber, estava tratando como sobra.

Só que não é sobra. É a maior parte. É onde a vida efetivamente acontece, enquanto a gente olha para o horizonte esperando a próxima data marcada — e depois estranha que os anos passem tão depressa, sem entender que passaram depressa porque quase nenhum dia foi contado.

Talvez a lucidez, aqui, seja apenas isso: parar de dividir os dias entre os que valem e os que não valem.

Aceitar que amanhã tem a mesma duração exata que teve o melhor dia da viagem. E que a única diferença entre os dois será o que eu decidir colocar dentro dele.

Uma vida extraordinária não é feita de dias extraordinários.

É feita de dias comuns levados a sério.