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Ensaio · Julho de 2026

Onde a Conta Fecha

Hoje estou chateado. E é curioso: costuma ser exatamente nesses dias que as melhores ideias aparecem.

O motivo é banal. Deixei uma instituição bancária justamente por falta de transparência e fui experimentar outra, na esperança de algo melhor — e me deparei com uma falta de transparência ainda maior. Uma frustração pequena, doméstica, dessas que qualquer pessoa conhece. Mas as frustrações pequenas, quando a gente para de fato para olhá-las, quase sempre apontam para perguntas grandes.

A primeira tentação é o pessimismo. As empresas, as instituições, no mundo inteiro — parece que não dá para confiar em nada. E não são só as instituições: quantas vezes fomos passados para trás por pessoas com quem fizemos negócio? Curiosamente, quando puxo pela memória, muitas das pessoas mais honestas com quem já negociei eram pessoas simples. O sorriso genuíno, o brilho no olhar, o trabalho feito de forma verdadeira, mesmo em momentos difíceis. Como se a honestidade não morasse, necessariamente, onde mora a sofisticação.

Mas a pergunta que me interessa de verdade é outra: de onde vêm as instituições ruins? Elas não caem do céu. Enquanto existirem pessoas com desvios de caráter, pessoas incapazes de uma conduta séria, pessoas que agridem e atrapalham os outros, elas criarão empresas e instituições que refletem a sua personalidade. A sociedade não é algo à parte de nós. Os sistemas injustos, os governos corruptos, a desigualdade — tudo isso é, em boa medida, um espelho. Um reflexo de quem nós somos.

E aqui é preciso honestidade: nem todo mundo que age mal escolheu o mal livremente. Há pessoas que tomam atitudes que não são as melhores por pura sobrevivência — porque sabem que, se apertarem, o sistema não estará ali por elas; serão ignoradas e humilhadas, sem dinheiro, sem recurso. É uma cadeia: uma coisa leva à outra. O espelho também mostra isso.

Então, qual é a solução, amigo? Sinceramente, não vejo saída estrutural que se sustente, a não ser que os próprios seres humanos mudem — que a natureza gere pessoas cada vez menos egoístas, cada vez mais altruístas, que pensem no próximo. A humanidade, apesar de todos os seus defeitos, conquistou uma evolução enorme nos últimos séculos; talvez estejamos caminhando lentamente nessa direção, não tenho como medir. Mas de uma coisa tenho convicção: se nada mudar no íntimo da alma humana, os problemas tendem a continuar. Trocaremos os sistemas e reproduziremos as mesmas pessoas dentro deles.

E mesmo que esse problema fosse resolvido — mesmo que amanhã acordássemos todos justos —, ainda restaria a outra metade da conta: a natureza. Tempestades, terremotos, climas instáveis, doenças, cânceres, vidas interrompidas fora de hora. A injustiça não é obra exclusiva dos seres humanos. A natureza, com toda a sua beleza, também é selvagem. Recebemos um mundo que tem muita beleza — e muita hostilidade.

E, no entanto, olha que coisa: mesmo dentro desse mundo, carregamos no coração o desejo da justiça. O desejo de sermos melhores, de vivermos melhor, num mundo melhor. Alguma coisa em nós entende que há algo errado por aqui. De onde vem esse entendimento?

É neste ponto que chegam os seres humanos que se apresentam como os mais sábios que já existiram — os mais avançados, os mais sofisticados tecnologicamente — para anunciar que Deus é uma invenção humana.

Pois eu olho para tudo o que vivi e não consigo acompanhá-los. Recebi sinais na minha vida — coisas que, analisadas com honestidade, não poderiam ter sido obra de outra coisa. E não sou só eu: há muitos casos documentados no mundo inteiro apontando na mesma direção. Escrevi um livro sobre isso, O Muro e a Porta, justamente para não precisar pedir que ninguém acredite em mim: os casos estão lá, com método, para quem quiser pesquisar. A tecnologia, hoje, me fez o favor de permitir uma curadoria honesta desse material — material que sustenta racionalmente uma intuição que a humanidade inteira sempre teve.

Deus não é a explicação da preguiça. É a explicação mais limpa, a menos burocrática, a mais simples. A hostilidade do mundo, o desejo de justiça no peito, os sinais que a vida insiste em dar: é ali que a conta fecha. Em Deus — e em alguma forma de vida depois da morte. Não precisamos ter vergonha de dizer isso. Para mim, não é invenção: é lógica. E me perdoem, mas se toda a evolução da humanidade produziu, como resultado final, a certeza de que não existe nada além da matéria, isso, para mim, não é evolução. É alucinação.

Entendo, de verdade, quem se revoltou com Deus. Os abusos cometidos em nome da religião existiram e existem, e há revoltas justas. Mas a revolta contra o que fizeram em nome de Deus não é prova contra Deus.

Como tudo isso funciona exatamente? Não sei. Se vale para todos? Sinceramente, também não sei — e sei que é duro dizer isso. Há pessoas que escolhem fazer o mal quando podiam, no mínimo, escolher a neutralidade, a paz, o acolhimento. O que a justiça reserva a essas escolhas, eu não tenho ferramentas para saber. Não fecho essa conta, porque não posso: eu não sou Deus, não desenhei o universo, não desenhei a existência. A nossa percepção alcança apenas um pedaço da realidade — e o pedaço não é o conjunto. O projeto em que fomos inseridos tem milhões de anos; talvez a nossa alma também tenha. Não faz sentido exigir da nossa inteligência uma visão que está além de onde ela alcança.

Termino como comecei: chateado com um banco, mas grato. Agradeço a Deus todos os dias pelos sinais que me deu. Se não fosse por eles, possivelmente eu não estaria aqui — ou estaria pensando fortemente em não estar. Não escondo isso de ninguém. É por isso que os meus textos nunca deixarão de falar de Deus e de mostrar às pessoas que esse é um caminho em que se pode acreditar: porque eu vi que ele age. E porque, num mundo com tanta falta de transparência, ele foi a coisa mais transparente que já me aconteceu.

André Rigonato Cunha

Este texto é gratuito e faz parte da Filosofia da Lucidez.
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