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Ensaio

Talvez o problema não seja você

Antes de me dedicar àquilo que era meu — escrever, pensar, publicar —, eu fiz o que precisava ser feito: cuidei das contas. Abri uma imobiliária, chamei minha mãe e meu irmão para trabalhar comigo. E confesso: eu não queria usar os meus dons por dinheiro. Queria usá-los livres.

Só que alguns traços da minha personalidade atrapalhavam o corretor que eu tentava ser. O primeiro era a honestidade — às vezes brutal. Eu falava a verdade e via a estranheza no rosto do cliente: por que esse corretor está me dizendo isso?

O segundo era a minha energia, que nunca foi linear. Tem dia em que eu viro a madrugada com a mente a todo vapor, mergulhado numa ideia, num projeto. No dia seguinte, a energia recua. Numa rotina que exige constância, isso pesa.

O terceiro era a sensibilidade. Eu ofereço o meu melhor, trato cada pessoa como digna do maior cuidado — e dói perceber quando, do outro lado, você é só mais uma peça, ouvindo o mesmo discurso que ela repete para dez corretores, apenas buscando vantagem.

E o quarto era o perfeccionismo. Para montar um anúncio, uma lista de imóveis, eu gastava três vezes mais tempo do que o normal, conferindo detalhes que eu sabia que ninguém notaria. Mas algo dentro de mim não deixava ser diferente. Precisava ser assim porque o meu cérebro disse que sim.

Depois veio a liberdade financeira, e com ela a chance de me dedicar aos meus textos, aos meus livros. E aí aconteceu o mais curioso: tudo aquilo que era problema virou exatamente aquilo que faz o meu trabalho bem feito.

Um escritor precisa dizer a verdade. Um escritor precisa de dias intensos e de dias de descanso. Um escritor precisa de uma empatia acima da média por pessoas que nem conhece. E um escritor precisa ser perfeccionista, afinando cada livro até ele ficar inteiro.

O que me tirava do lugar num ofício era exatamente o que me colocava no lugar em outro. Por isso, se você se sente incompatível com o que faz, talvez o problema não seja você. Talvez seja a falta de encaixe entre aquilo que é só seu e aquilo que você faz.

Mas atenção: nem sempre trocar de caminho só por isso é a decisão certa. Eu sabia que não era o corretor mais compatível — e, ainda assim, era o que eu precisava naquele momento. Há épocas na vida em que a gente faz o que precisa ser feito.

A vida não é linear. Há tempo de plantar e tempo de colher. E há tempo de pavimentar o chão por onde, um dia, você vai finalmente caminhar até aquilo que sempre esteve esperando por você.

André Rigonato Cunha

Este texto é gratuito e faz parte da Filosofia da Lucidez.
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