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Letra

Testemunho · Julho de 2026

A Paz que Perdeu a Hora

Será que a fé — o caminho certo — faz as coisas darem certo para a gente? Ou será que a gente só presta atenção nos acertos quando já acredita que deveria estar certo? A pergunta é do cético que mora em mim, e é boa demais para merecer resposta rápida. Para tentar uma resposta honesta, preciso voltar exatos vinte anos.

No começo da faculdade, eu me deliciava com as aulas de sociologia, de filosofia, de psicologia. Um dos professores de que eu mais gostava era, dava para perceber, um cético — nem lembro mais qual deles, e a culpa não era das aulas, que eu amava. Mas foi por essas portas que entrei numa viagem meio niilista: o mundo sem propósito, nada acontecendo por razão nenhuma. Toda a fé que me restava, depositei na ciência — e, com um TDAH forte desde sempre, na química que prometia me consertar.

No último ano do curso, as doses do estimulante só cresciam. E cresciam junto os efeitos: eu falava demais na sala, interrompia, era olhado pelos colegas com um certo desprezo que eu fingia não notar; vieram paranoias; e veio, por fim, a gagueira. O remédio que devia me dar o controle ia me tirando um pedaço dele por vez.

Chegou então a pré-monografia — a apresentação de meio de ano que preparava a defesa final. Com medo de gaguejar diante da banca, tomei ansiolíticos antes. E eles funcionaram bem demais: fiquei leve, despreocupado, tranquilo a ponto de ficar ensaiando com toda a calma diante do espelho do banheiro. Tão em paz que, quando abri a porta do auditório, minha equipe já estava no meio da apresentação. Não deu tempo nem de me esconder. Fiquei ali, meio dopado, aplaudindo e rindo como se nada tivesse acontecido. E o espanto dos professores foi exatamente esse: ele chega atrasado, com a equipe apresentando, perde o próprio trabalho — e permanece imóvel, tranquilo, como se nada tivesse acontecido.

Ensaiei para o espelho enquanto o auditório assistia à minha ausência.

O comprimido que tomei para não perder a apresentação foi o que me fez perdê-la — tomado, aliás, para consertar o que outros comprimidos tinham quebrado. Cada solução fabricava o problema seguinte. A conta chegou seis meses depois: apesar de ter as notas individuais mais altas do grupo, fui reprovado naquela matéria com seis vírgula noventa e cinco, quando a média era sete. Cinco centésimos. A primeira reprovação da minha vida. E foi por esses mesmos anos que perdi, duas vezes seguidas, a inscrição do concurso de poesia que eu sonhava disputar: num ano cheguei um dia depois; no outro, poucas horas depois de fechadas as inscrições. Era a estação em que os detalhes jogavam contra — a mesma de que falei em O Atraso Pontual.

Pois bem: volto à pergunta do começo. O cético que fui — e que faço questão de consultar até hoje — responde depressa: viés de confirmação. A memória é uma curadora interesseira: guarda o que confirma, descarta o resto. Em 2006 eu estava mal e reparava em tudo o que dava errado; hoje estou bem e reparo em tudo o que dá certo. Atenção seletiva dos dois lados. É uma resposta séria, e não pretendo vencê-la no grito.

Mas há coisas que não são percepção. Não uso mais estimulantes — e registro: isto é testemunho, não receita; cada corpo é um país, e eu só conto do meu. Encontrei uma vocação verdadeira, sigo o que sinto que é para mim, faço o que entendo que devo fazer. E, mudada a direção, mudaram coisas mensuráveis, não apenas humores. Meses antes da nossa viagem à Europa — a última grande viagem a dois antes de os filhos chegarem — andávamos preocupados; a franqueadora da nossa loja lançou uma promoção, decidimos entrar, e a receita veio o triplo do habitual: a viagem que nos inquietava ficou serena. E a decisão que duas igrejas diferentes, por bocas que não me conheciam, anunciaram que eu deveria tomar — contei essa história no meu livro — era justamente a compra desse negócio. Comprei. Deu certo. Fora o atraso pontual do último domingo. Fora os detalhes pequenos, aqueles que só eu sei — os que, contados, ninguém acredita. Alguns nem conto: sinal contado encolhe.

William James mandaria julgar pelos frutos; Jung talvez chamasse tudo de sincronicidade; o crente chama de providência. Não sei arbitrar entre eles — e desconfio de quem sabe. O que aprendi a ler é coisa mais simples: sinais existem nos dois sentidos. Quando vamos na contramão do que deveríamos ser, a vida acena — atrasos, centésimos, portas fechadas por horas — pedindo que a gente arrume a direção. E quando enfim acertamos o rumo que era nosso desde o início, ela acena de novo, agora dizendo apenas: siga. Em 2006, os sinais diziam vire. Hoje dizem continue. Nos dois casos, falaram. Talvez a vida nunca tenha ficado muda; talvez eu é que tenha passado alguns anos sem entender a língua.

André Rigonato Cunha

Este texto é gratuito e faz parte da Filosofia da Lucidez.
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