Será que a fé faz as coisas darem certo — ou a gente só repara nos acertos quando já acredita? A pergunta é do cético que mora em mim, e, para respondê-la com honestidade, preciso voltar vinte anos: até uma estação em que os remédios que prometiam me consertar quebravam mais do que consertavam, e os detalhes jogavam contra.
Um testemunho sobre 2006, sobre 2026 — e sobre uma língua que levei anos para entender.
Se a ideia te chamou, é só escolher o ritmo.
Será que a fé faz as coisas darem certo? Ou a gente só presta atenção nos acertos quando já acredita que deveria estar certo? A pergunta é do cético que mora em mim, e é boa demais para merecer resposta rápida. Para tentar respondê-la, preciso voltar exatos vinte anos.
No começo da faculdade, entrei por portas céticas numa viagem meio niilista — o mundo sem propósito. Toda a fé que me restava depositei na ciência e, com um TDAH forte, na química que prometia me consertar. No último ano, as doses do estimulante cresciam, e com elas os efeitos: eu falava demais, vieram paranoias, veio a gagueira. O remédio que devia me dar controle ia me tirando um pedaço dele por vez.
Na pré-monografia, com medo de gaguejar diante da banca, tomei ansiolíticos. Funcionaram bem demais: fiquei tão tranquilo, ensaiando diante do espelho, que quando abri a porta do auditório minha equipe já estava no meio da apresentação. Perdi o próprio trabalho e permaneci imóvel, como se nada tivesse acontecido.
Ensaiei para o espelho enquanto o auditório assistia à minha ausência.
O comprimido que tomei para não perder a apresentação foi o que me fez perdê-la. Cada solução fabricava o problema seguinte. Resultado: reprovado por cinco centésimos — seis vírgula noventa e cinco quando a média era sete, a primeira reprovação da minha vida. E, nos mesmos anos, perdi duas vezes a inscrição do concurso de poesia que sonhava disputar, por um dia, por horas. Era a estação em que os detalhes jogavam contra.
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Volto à pergunta. O cético responde depressa: viés de confirmação — a memória é uma curadora interesseira, guarda o que confirma e descarta o resto. É uma resposta séria, e não pretendo vencê-la no grito. Mas há coisas que não são percepção. Não uso mais estimulantes, encontrei uma vocação verdadeira, e mudada a direção mudaram coisas mensuráveis. Uma promoção da franqueadora triplicou a receita meses antes da viagem que nos preocupava; a compra de negócio que duas igrejas anunciaram que eu deveria fazer deu certo. Fora os detalhes pequenos que, contados, ninguém acredita — sinal contado encolhe.
William James mandaria julgar pelos frutos; Jung chamaria de sincronicidade; o crente, de providência. Não sei arbitrar entre eles, e desconfio de quem sabe. O que aprendi a ler é mais simples: sinais existem nos dois sentidos. Na contramão do que devemos ser, a vida acena pedindo que a gente vire; acertado o rumo, acena dizendo siga. Em 2006 diziam vire; hoje dizem continue. Nos dois casos, falaram. Talvez a vida nunca tenha ficado muda — talvez eu é que tenha passado alguns anos sem entender a língua.
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Essa foi a trilha curta. O caminho inteiro tem paisagens que só aparecem sem pressa.
Será que a fé — o caminho certo — faz as coisas darem certo para a gente? Ou será que a gente só presta atenção nos acertos quando já acredita que deveria estar certo? A pergunta é do cético que mora em mim, e é boa demais para merecer resposta rápida. Para tentar uma resposta honesta, preciso voltar exatos vinte anos.
No começo da faculdade, eu me deliciava com as aulas de sociologia, de filosofia, de psicologia. Um dos professores de que eu mais gostava era, dava para perceber, um cético — nem lembro mais qual deles, e a culpa não era das aulas, que eu amava. Mas foi por essas portas que entrei numa viagem meio niilista: o mundo sem propósito, nada acontecendo por razão nenhuma. Toda a fé que me restava, depositei na ciência — e, com um TDAH forte desde sempre, na química que prometia me consertar.
No último ano do curso, as doses do estimulante só cresciam. E cresciam junto os efeitos: eu falava demais na sala, interrompia, era olhado pelos colegas com um certo desprezo que eu fingia não notar; vieram paranoias; e veio, por fim, a gagueira. O remédio que devia me dar o controle ia me tirando um pedaço dele por vez.
Chegou então a pré-monografia — a apresentação de meio de ano que preparava a defesa final. Com medo de gaguejar diante da banca, tomei ansiolíticos antes. E eles funcionaram bem demais: fiquei leve, despreocupado, tranquilo a ponto de ficar ensaiando com toda a calma diante do espelho do banheiro. Tão em paz que, quando abri a porta do auditório, minha equipe já estava no meio da apresentação. Não deu tempo nem de me esconder. Fiquei ali, meio dopado, aplaudindo e rindo como se nada tivesse acontecido. E o espanto dos professores foi exatamente esse: ele chega atrasado, com a equipe apresentando, perde o próprio trabalho — e permanece imóvel, tranquilo, como se nada tivesse acontecido.
Ensaiei para o espelho enquanto o auditório assistia à minha ausência.
O comprimido que tomei para não perder a apresentação foi o que me fez perdê-la — tomado, aliás, para consertar o que outros comprimidos tinham quebrado. Cada solução fabricava o problema seguinte. A conta chegou seis meses depois: apesar de ter as notas individuais mais altas do grupo, fui reprovado naquela matéria com seis vírgula noventa e cinco, quando a média era sete. Cinco centésimos. A primeira reprovação da minha vida. E foi por esses mesmos anos que perdi, duas vezes seguidas, a inscrição do concurso de poesia que eu sonhava disputar: num ano cheguei um dia depois; no outro, poucas horas depois de fechadas as inscrições. Era a estação em que os detalhes jogavam contra — a mesma de que falei em O Atraso Pontual.
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Pois bem: volto à pergunta do começo. O cético que fui — e que faço questão de consultar até hoje — responde depressa: viés de confirmação. A memória é uma curadora interesseira: guarda o que confirma, descarta o resto. Em 2006 eu estava mal e reparava em tudo o que dava errado; hoje estou bem e reparo em tudo o que dá certo. Atenção seletiva dos dois lados. É uma resposta séria, e não pretendo vencê-la no grito.
Mas há coisas que não são percepção. Não uso mais estimulantes — e registro: isto é testemunho, não receita; cada corpo é um país, e eu só conto do meu. Encontrei uma vocação verdadeira, sigo o que sinto que é para mim, faço o que entendo que devo fazer. E, mudada a direção, mudaram coisas mensuráveis, não apenas humores. Meses antes da nossa viagem à Europa — a última grande viagem a dois antes de os filhos chegarem — andávamos preocupados; a franqueadora da nossa loja lançou uma promoção, decidimos entrar, e a receita veio o triplo do habitual: a viagem que nos inquietava ficou serena. E a decisão que duas igrejas diferentes, por bocas que não me conheciam, anunciaram que eu deveria tomar — contei essa história no meu livro — era justamente a compra desse negócio. Comprei. Deu certo. Fora o atraso pontual do último domingo. Fora os detalhes pequenos, aqueles que só eu sei — os que, contados, ninguém acredita. Alguns nem conto: sinal contado encolhe.
William James mandaria julgar pelos frutos; Jung talvez chamasse tudo de sincronicidade; o crente chama de providência. Não sei arbitrar entre eles — e desconfio de quem sabe. O que aprendi a ler é coisa mais simples: sinais existem nos dois sentidos. Quando vamos na contramão do que deveríamos ser, a vida acena — atrasos, centésimos, portas fechadas por horas — pedindo que a gente arrume a direção. E quando enfim acertamos o rumo que era nosso desde o início, ela acena de novo, agora dizendo apenas: siga. Em 2006, os sinais diziam vire. Hoje dizem continue. Nos dois casos, falaram. Talvez a vida nunca tenha ficado muda; talvez eu é que tenha passado alguns anos sem entender a língua.
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André Rigonato Cunha