Filosofia da Lucidez
Letra

O Direito de Não Sorrir

Tínhamos ido jantar depois de dias que só existem em viagem: caminhadas, mergulhos, uma cidade sendo descoberta a cada esquina. É um cansaço que se acumula sem que nenhum momento tenha sido ruim. O jantar foi pesado de propósito — era preciso repor o que os dias tinham levado — e foi ali, à mesa, que o cansaço finalmente sentou conosco.

Na volta para casa veio a notícia: o passeio do dia seguinte tinha sido adiantado. Duas horas.

Aquilo mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir. Sou do tipo que precisa de oito horas de sono para acordar inteiro, e isso sem contar o tempo que às vezes passo deitado, no escuro, esperando o cérebro concordar em desligar. Nessas horas ele é imprevisível. Eu sabia, ainda na rua, que não conseguiria dormir o que precisava. E o pior é que o simples fato de saber já bastava para garantir o resultado. A conta estava fechada antes de eu deitar.

Dormi menos. Levantei com o corpo ainda pedindo o que não tinha recebido e a cabeça pesada.

Antes de sair, o boné. Eu quis reabrir o apartamento para buscar o meu; a Letícia disse que não tínhamos esse tempo. Ela tinha razão: o passeio fora adiantado, o horário estava apertado, cada minuto já tinha dono. Voltei mesmo assim. E não encontrei. Desci de mãos vazias, com o tempo dela gasto e a irritação dos dois já instalada antes do primeiro café.

Nossa prima, que observa tudo com carinho e cuida de detalhes que ninguém pediu, tinha garantido a primeira fileira para nós. Vidro inteiro à frente, nada entre os olhos e a Croácia. Foi um gesto pequeno e exato, do tipo que só se percebe depois.

Mas algo mais chegou sem avisar: o guia.

Ao contrário da comandante do dia anterior — a croata que sorria o tempo todo e contava a história de cada ilha com humor seco —, o guia que nos recebeu não tinha nenhuma vocação para o encanto. Era eficiente. Disciplinado. Passou todas as instruções possíveis, sem pular um único detalhe, por uns quarenta minutos. Fazia tudo certo. Só faltava o molho.

E havia o sotaque. O inglês dele vinha carregado de croata, e cada frase chegava ao meu ouvido exigindo um pequeno esforço de tradução que eu, naquela manhã, simplesmente não tinha para dar. Não era culpa dele, evidentemente. Era o gatilho que faltava.

Preciso ser honesto sobre aquele momento: não havia iluminação espiritual disponível. Não havia leitura, não havia oração, não havia sabedoria acumulada que me tirasse dali. Existem horas em que a pessoa simplesmente não está de bom humor, e nenhum recurso interior atende ao chamado. É inevitável. O corpo tem argumentos próprios e não aceita réplica.

Só que essa é exatamente a parte que eu não vi na hora.

Enquanto eu media, em silêncio, a falta de carisma do guia — comparando-o com a colega do dia anterior, achando-o seco, cronometrando os quarenta minutos —, eu era, naquele exato instante, incapaz de reunir um grama de gentileza para a mulher ao meu lado por causa de um boné que eu tinha ido buscar contra o relógio e não tinha achado. Ela estava certa desde o começo. E ainda assim era eu quem estava de cara fechada.

Eu cobrava dele precisamente aquilo que eu não conseguia entregar a ninguém.

Depois o ônibus nos deixou nas cachoeiras de Krka. Passarelas de madeira sobre a água, o barulho constante, um verde que não existe em cidade nenhuma.

E as coisas foram se acalmando sozinhas, na velocidade delas. A paisagem pelo vidro já tinha ajudado, a caminhada fez o resto, e chegou um ponto em que eu estava tão contente com o que via que a Letícia riu e disse que às vezes preferia a versão anterior. Eu não venci o mau humor. Ele foi atravessado, como um túnel.

No fim da viagem, aquela manhã já tinha virado piada nossa — a cena do guia, o sotaque, o boné inexistente, eu de cara fechada na primeira fileira. Todas elas tinham percebido, na hora, que aquele não era o meu humor de sempre. Ninguém disse nada naquele momento, o que também é uma forma de gentileza.

Foi mais tarde, conversando com nossa prima sobre as diferenças entre viver no Brasil e viver na Europa, que a coisa se organizou na minha cabeça.

Comentei algo que muita gente estranha por aqui: nenhum atendente, nenhum profissional, parece ter a obrigação de manter um sorriso permanente no rosto. Existe uma liberdade de não ser doce o tempo todo. No Brasil — e dizem que em alguns lugares da América também — isso é cobrado como parte do serviço.

À primeira vista, parece pior. Parece frieza.

Eu chamaria de outra coisa. Chamaria, talvez, de respeito.

Não é porque alguém está atendendo você, porque precisa daquele trabalho, que essa pessoa deve estar automaticamente disponível, alegre, macia. Aceitar o contrário é aceitar que quem serve tem menos direito ao próprio estado interno do que quem é servido. E isso, quando escrito assim, com todas as letras, fica difícil de defender.

Não exigir o sorriso não é indiferença. É compreender melhor a natureza humana. É reconhecer que a pessoa do outro lado do balcão dormiu mal, brigou por causa de um boné, recebeu ontem à noite uma notícia que atravessou o sono dela. É saber que ela teve uma manhã igual à que eu tive — e que, mesmo assim, está fazendo o trabalho direito. Só sem molho.

Porque não está escrito em lugar nenhum que a vida é feita só de bons momentos.

Nenhum livro sério disse isso. Nenhuma tradição que se sustente por séculos prometeu isso. E se alguém disser — com muita convicção, com muito brilho, com muita fluência —, desconfie. Provavelmente está tentando te vender alguma coisa que talvez não seja boa para você.

O guia croata não me devia carisma. Eu, naquela manhã, não teria conseguido entregar nenhum.

Da véspera, o barco que ninguém escolheu:

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