Filosofia da Lucidez
Letra

O Óleo das Engrenagens

Aquele dia começou com um mal-entendido.

A anfitriã do quarto anterior tinha deixado um folheto sobre o móvel, desses que denunciam o tipo de leitura que a pessoa faz — energias, cristais, alinhamentos. Eu já sabia da vocação dela antes mesmo de conversarmos direito.

De manhã, com o cérebro ainda metade dormindo, ouvi ela me dizer alguma coisa em inglês, com aquele sotaque belga. Onde ela disse water, eu ouvi aura.

E o folheto fez o resto: a frase errada me pareceu perfeitamente natural. Your aura is very crystal. Não me passou pela cabeça que pudesse ser outra coisa. Achei um gesto bonito, gentil, quase solene — e devolvi o elogio à altura:

— Your aura is very crystal too!

Ela me olhou de um jeito difícil de descrever. Não tinha falado de aura nenhuma. Tinha falado da água. The water is very crystal. Estava nos avisando que o mar de Hvar era transparente, que valia a pena — e eu acabara de elogiar a aura de uma senhora que fazia apenas uma recomendação de passeio.

Rimos o resto da manhã. E aquela bobagem acabou virando o assunto do dia.

Horas depois estávamos nós três dentro daquela mesma água. A água de Hvar, exatamente como ela tinha descrito: transparente, sem nenhuma aura à vista.

Minha prima estava curiosa: queria entender como funciona uma roda de amigos homens.

Expliquei que homens costumam ser mais competitivos do que parece. Às vezes a competição é explícita; na maior parte das vezes é velada, e opera em aspectos que nem sempre confessamos.

Fui de muitos grupos, ao longo de muitos anos, e dá para reconhecer os tipos.

Existe o grupo dos Zés Bonitinhos — os senhores conquistadores. Não é preciso entrar em detalhes para imaginar qual competição está em jogo ali.

Existe o grupo dos ousados, que precisam provar uns aos outros quem é o mais destemido, e cujo repertório de provas costuma envelhecer mal.

E existe o grupo dos engraçados, dos descolados, que competem na graça.

Passei por vários. Boa parte disso, é verdade, tinha menos a ver com o fato de sermos homens e mais com o fato de sermos jovens.

Mas contei a ela qual competição eu sempre gostei mais: a de quem era o mais divertido. Essa exige uma coisa que as outras não exigem, e é justamente a que parece defeito — exige disposição para ser um pouco bobo.

Os amigos com quem mais gosto de sair hoje já não competem quase nada. Amadureceram. Mas carregaram consigo aquela leveza, aquela bobeira específica que algumas mulheres olham de longe sem entender — e que, no fim, acabam resumindo com um “homem é assim”.

Minha prima riu e emendou: talvez seja por isso que Deus fez as mulheres, para colocar vocês na linha quando estão sendo bestas demais.

Respondi que aceitava a linha, com uma ressalva: nunca deixem que a gente pare completamente de ser um pouco besta. É de lá que vem boa parte do que torna a convivência divertida.

Penso no humor como o óleo das engrenagens da vida.

Ele não é o motor. Não é ele que faz o mundo girar. Mas é ele que faz o mundo girar sem ranger — sem aquele barulho de metal contra metal que a existência produz quando falta lubrificação. E a existência produz esse barulho com uma facilidade impressionante.

Rir relaxa mais do que a massagem que a gente paga para receber naquelas cadeiras. É de graça, não tem hora marcada, e a única coisa que exige é que você aceite não ser importante por alguns minutos.

Escrevo isso também por outra razão.

Quem lê estes textos pode ficar com a impressão de um tom quase professoral. Não é que eu queira. É que existe em mim uma vontade de contribuir com alguma coisa, e essa vontade tende a endurecer a voz. O risco é o leitor imaginar que existe, atrás do texto, um sujeito permanentemente sério, ocupado o dia inteiro com ideias grandes, lamentando o estado do mundo entre um parágrafo e outro.

Não é assim. A vida não é assim.

Eu reservo para mim o direito de ser um pouco bobo. E arriscaria dizer mais: em muitos momentos, ser bobo é a forma mais inteligente de estar ali. Perceber que aquela hora não pede profundidade, não pede rigor, não pede tese — pede só que alguém alivie o peso da sala — é um tipo de percepção que nenhuma erudição substitui.

Onde a situação não exige que sejamos duros, talvez devêssemos sentir mais obrigação de sermos leves.

Da mesma ilha, outra conversa:

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